A mãe de um dos meninos vítimas de um estupro coletivo ocorrido em 21 de abril, na Zona Leste de São Paulo, desabafou sobre o trauma que o crime causou em seu filho de 10 anos. Em entrevista à TV Globo, ela afirmou que o menino não esquecerá o ocorrido. “Teve a Justiça. Não do jeito que eu queria, mas teve. Isso não vai sair da cabeça do meu filho. Não tão cedo. É uma coisa que, ainda mais, depois desses vídeos e tudo…”, disse.
O impacto do crime na vida da criança
Segundo a mãe, o menino, que antes era mais comunicativo, tornou-se mais calado e temeroso. “Ele ficou mais quieto, né? Ele era um pouco mais falante dentro de casa. Ele fica um pouco mais quieto. Ele tem medo dos outros, lá onde a gente está, descobrir. Porque é chato comentar alguma coisa.” A outra vítima tem 7 anos. Para preservar a identidade das famílias, a imagem da mulher não foi exibida.
O sentimento de culpa e a busca por justiça
A mãe também expressou o sentimento de culpa por ter confiado nos agressores. “Eu me sinto mal. Porque, querendo ou não, eu deixei, dei liberdade para ele brincar com esses meninos. Mas iam chamar na porta. Peguei uma certa confiança, porque foram um tempo, né? Eles sempre estavam juntos. E eu não ter percebido isso, pra mim, é horrível”, desabafou. Apesar da dor, ela se sente aliviada com as prisões: “Eu tô me sentindo aliviada pelas prisões, né? Porque eles vão pagar pelo que eles fizeram. E, agora, vou entregar nas mãos de Deus.”
A dinâmica do crime
De acordo com a investigação, os suspeitos chamaram as crianças para empinar pipa e, em seguida, as convidaram para tomar banho. Quando as vítimas entraram no local, os agressores trancaram a porta e cometeram os abusos. O crime só foi denunciado dois dias depois, quando a irmã de uma das vítimas viu um vídeo do estupro circulando nas redes sociais.
Os suspeitos
Os cinco envolvidos foram identificados e detidos. O único adulto, Alessandro Martins dos Santos, de 21 anos, foi preso em Brejões, na Bahia, e transferido para o 63º Distrito Policial, na Vila Jacuí, Zona Leste de São Paulo. Ele confessou participação e não demonstrou arrependimento. “Na verdade, o que a gente percebe é uma insensibilidade diante do sofrimento”, afirmou o delegado. Os outros quatro suspeitos são adolescentes, que também confessaram e alegaram se tratar de uma “brincadeira”, versão rejeitada pela polícia. “A gente ouviu em algum momento a palavra ‘zoeira’, o que não é o que se aceita como uma zoeira entre crianças, entre adolescentes. Realmente foram atos de sadismo”, disse o delegado.
Punição e dados alarmantes
Os adolescentes podem cumprir até três anos de internação por estupro de vulnerável. O adulto foi indiciado por estupro de vulnerável, corrupção de menores e compartilhamento de pornografia infantil. Dados da Secretaria da Segurança Pública mostram que a cidade de São Paulo registrou 640 casos de estupro de vulnerável apenas no primeiro trimestre de 2026, o maior número para o período desde 2017. Isso representa, em média, sete vítimas por dia, ou um caso a cada três horas e vinte minutos. Para o advogado e especialista em direitos humanos Ariel de Castro Alves, o aumento está ligado a fatores como a circulação de conteúdos violentos na internet, maior conscientização para denúncia e sensação de impunidade, além da falta de delegacias especializadas para atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual em São Paulo.



