Fantástico esclarece dúvidas sobre hantavírus após surto em cruzeiro
Fantástico esclarece dúvidas sobre hantavírus

O programa Fantástico esclareceu todas as principais dúvidas sobre o hantavírus após o surto registrado em um navio de cruzeiro. Cerca de 150 passageiros e tripulantes da embarcação começaram a desembarcar neste domingo nas Ilhas Canárias, na Espanha, em meio a grande expectativa ao longo da semana. No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou sete casos de hantavírus neste ano, nenhum deles relacionado à cepa Andes, a mesma identificada no cruzeiro. Especialistas garantem que não há motivo para pânico no país.

Cronologia do surto no navio

O MV Hondius navegava há 12 dias pelo oceano Atlântico, próximo a Tristão da Cunha, uma das ilhas mais remotas do mundo, quando o capitão anunciou no dia 12 de abril: "É com tristeza que tenho o dever de informar que um dos nossos passageiros faleceu subitamente esta noite. Por mais trágico que seja, acreditamos que foi por causas naturais. De qualquer forma, o navio está seguro." No entanto, a embarcação não estava segura. Um passageiro holandês de 70 anos foi a primeira vítima do hantavírus.

O que é o hantavírus?

A pesquisadora Elba Lemos explicou que o hantavírus é mantido em ratos silvestres: "São vírus que são mantidos em ratos silvestres. Vou botar até a palavra 'selvagem'; num ambiente selvagem". Sobre a taxa de letalidade, ela afirmou: "Ela pode variar de 20% a 50%. É uma taxa alta." O hantavírus não é desconhecido e existe em várias partes do mundo, sendo transmitido principalmente pela inalação de partículas de urina, fezes ou saliva de ratos silvestres que podem estar no ar ou misturadas à poeira.

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Detalhes do cruzeiro

O navio fazia um cruzeiro de expedição por ilhas isoladas do Atlântico Sul para observar a fauna selvagem. A embarcação partiu de Ushuaia, na Argentina, no dia primeiro de abril, com destino a Cabo Verde, na África. A hipótese das autoridades é de que o passageiro holandês tenha se contaminado antes da partida, pois ele havia visitado uma área rural na Argentina. Treze dias após sua morte, a mulher dele conseguiu desembarcar com o corpo na ilha de Santa Helena. Porém, em uma conexão em Joanesburgo, na África do Sul, ela passou mal, foi levada ao hospital e morreu dois dias depois. Exames confirmaram a contaminação pela variante mais rara do hantavírus, conhecida como Andes.

Transmissão entre humanos

O surto no navio tornou-se uma preocupação mundial devido à forma de transmissão dessa cepa. O diretor da Organização Mundial da Saúde explicou: "A Andes é a única espécie do hantavírus com transmissão entre humanos." A pesquisadora Elba Lemos detalhou o que seria o contato próximo que causa a transmissão: "Estar do jeito que nós estamos aqui e, continuadamente, a pessoa é infectada. A transmissão é por inalação". Questionada se a pessoa próxima inala o ar com o vírus, ela confirmou: "Isso. A taxa de transmissão é impossível de prever, porque tem muito desconhecimento ainda. Porque são poucos casos, é raro." É importante reforçar que a transmissão do hantavírus entre humanos não acontece com a mesma facilidade do vírus da Covid. Apenas a cepa Andes, que existe na zona rural da Argentina e do Chile, tem transmissão direta de pessoa para pessoa, e mesmo assim é necessário contato próximo e prolongado com o infectado. Já o coronavírus é um vírus respiratório capaz de contaminar várias pessoas ao mesmo tempo em aeroportos, escolas, transportes públicos e grandes aglomerações.

Medo e desembarque

Com as lembranças recentes da pandemia da Covid, o medo se espalhou pelo mundo conforme novos casos surgiam no navio. Uma alemã morreu no dia 2 de maio. Outros seis casos da cepa Andes foram confirmados, e dois ainda estão em investigação. Quando o navio chegou a Cabo Verde, que seria o destino final, ficou ancorado e os passageiros não tiveram autorização para desembarcar devido ao surto. Pelas redes sociais, eles demonstravam apreensão. Uma especialista reforçou: "Não se trata de uma nova pandemia da Covid. Não é a mesma situação de seis anos atrás."

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Situação no Brasil

No Brasil, pesquisadores acompanham tudo com atenção. Na Fiocruz, referência em pesquisas sobre o hantavírus, o caso é tratado como um alerta sanitário importante, que não deve espalhar medo, mas sim mais informações sobre o vírus. A pesquisadora Elba Lemos explicou: "São os dois órgãos que são atingidos durante a infecção: o pulmão e o coração." Ela detalhou os sintomas iniciais: "Tem febre, dor de cabeça, dor no corpo, manifestação gastrointestinal, com náusea e vômito." Há uma diferença crucial, especialmente quando a suspeita de hantavírus se confunde com a de dengue. Elba Lemos alertou: "É um problema sério com a dengue. Por quê? Qual é a orientação que a gente dá para uma pessoa que está com suspeita de dengue? Hidrate. Aumente a hidratação, não é? Se você faz isso com a hantavirose, você está piorando o quadro dele, porque vai encharcar o pulmão." Questionada se os médicos brasileiros estão preparados para diferenciar os diagnósticos, respondeu: "Isso é algo que a gente precisa reforçar."

Casos no Brasil

O Brasil registrou, até agora, sete casos de hantavirose neste ano, sem qualquer relação com o surto do navio. Em fevereiro, um homem de 46 anos morreu após contato com roedores silvestres em uma área de lavoura na região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais. Na última sexta-feira, o governo de Santa Catarina notificou uma infecção em Seara, no oeste do estado. No Paraná, a Secretaria de Saúde confirmou mais dois diagnósticos: uma mulher de 34 anos, moradora de Ponta Grossa, e um homem de 34 anos, morador de Pérola do Oeste, na fronteira com a Argentina. O secretário de Saúde do Paraná, César Neves, afirmou: "É uma doença que está sob vigilância aqui no estado do Paraná. Devemos tomar precauções, mas quero tranquilizar a população que não temos ainda nenhum motivo para pânico ou uma preocupação mais exacerbada."

Rastreamento e prevenção

Uma das grandes preocupações é rastrear as pessoas que tiveram contato com os passageiros do navio, pois o período de incubação do vírus pode chegar a 60 dias. Elba Lemos acrescentou: "Veja, saiu um passageiro, esse passageiro pegou um avião. Essas pessoas que tiveram contato têm que ser, pelo menos, orientadas." Ela explicou que o rastreamento é necessário quando surge qualquer manifestação clínica compatível com a doença, como febre, dor no corpo e dor de cabeça. Questionada sobre as chances de a cepa Andes chegar ao Brasil, respondeu: "Olha, nós fazemos divisas com a Argentina. Isso é possível." Apesar disso, não há motivo para alarmismo. "São poucos casos. Para terem uma ideia, desde 1993, quando foi descrito pela primeira vez no Brasil, até a data atual, não chega a 2.500 casos."

Vacina em desenvolvimento

A farmacêutica Moderna afirmou, na última quinta-feira, que já pesquisa, em parceria com a Coreia do Sul e o Exército dos Estados Unidos, uma vacina contra o hantavírus. Elba Lemos concluiu: "É uma oportunidade, inclusive, aqui que a gente está falando, que precisa dar um olhar para essas doenças que são menos frequentes, são raras, mas que têm alta letalidade. Porque, na maioria das vezes, elas só vão dar um impacto quando ocorre uma situação dessa."