Investigadores recomendam prisão do marido de PM morta em São Paulo
Representantes da Corregedoria da Polícia Militar e delegados envolvidos no caso da policial militar Gisele Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça, reuniram-se nesta quarta-feira (11), em São Paulo, e concluíram que devem solicitar a prisão do marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos. A decisão ocorre após análise detalhada das evidências coletadas durante a investigação.
Detalhes do caso e descobertas do laudo
A PM, de 32 anos, foi encontrada sem vida no apartamento onde residia com o marido, no Brás, região central da capital paulista. Inicialmente, o episódio foi registrado como suicídio, mas posteriormente passou a ser tratado como morte suspeita. Geraldo estava presente no local e foi quem acionou os serviços de emergência.
A reunião dos investigadores foi realizada depois que o laudo necroscópico apontou a existência de lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo os peritos, há indícios claros de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou qualquer tipo de reação defensiva. O documento descreve essas lesões como "contundentes" e causadas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal", o que significa arranhões que sugerem marcas de unhas.
O corpo da policial militar foi exumado e submetido a novos exames no sábado (7) no Instituto Médico-Legal (IML) Central de São Paulo, incluindo uma tomografia. Na terça-feira (10), a Justiça paulista redistribuiu o caso para uma Vara do Tribunal do Júri, que é especializada em analisar crimes contra a vida, atendendo a um pedido fundamentado na natureza grave do delito investigado.
Inconsistências na versão do marido
Diversos aspectos da ocorrência chamaram a atenção dos investigadores. Um deles é o horário da morte. Uma vizinha do casal relatou à polícia que acordou às 7h28 após ouvir um estampido único e intenso proveniente do apartamento. Esse ruído ocorreu aproximadamente meia hora antes da primeira ligação realizada pelo marido da vítima ao serviço de emergência.
Na chamada registrada às 7h57 para a Polícia Militar, ele afirmou que a esposa havia cometido suicídio. "Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor", declarou Neto durante a comunicação. Minutos depois, às 8h05, ele telefonou para o Corpo de Bombeiros e informou que a mulher ainda estava respirando. As equipes de socorro chegaram ao local às 8h13.
Outro ponto questionável é relacionado ao disparo. Um dos socorristas relatou que a arma parecia estar "bem encaixada" na mão da mulher, de uma maneira que ele nunca havia presenciado em casos de suicídio. Por considerar a cena atípica, decidiu fotografá-la. O profissional também afirmou que o sangue já estava coagulado quando a equipe chegou ao apartamento e que não havia cartucho de bala no ambiente.
Contradições sobre o banho e comportamento
No inquérito da Polícia Civil, depoimentos dos socorristas que atenderam a ocorrência levantam sérias dúvidas sobre a versão apresentada pelo marido da vítima. Em seu relato, o oficial afirmou que estava tomando banho no momento em que ouviu o disparo. No entanto, os primeiros bombeiros que chegaram ao local disseram que ele estava completamente seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento.
O tenente-coronel declarou que entrou no banheiro por volta das 7h e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que imaginou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala. Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência descreveu que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo vestindo bermuda, sem camisa e totalmente seco.
"O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o tenente-coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco", registrou o socorrista em seu depoimento. Ele também observou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não existiam poças de água no piso ou no corredor. Essa observação foi corroborada por um tenente da PM cuja equipe foi a primeira a chegar ao local, que apontou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo.
Conduta emocional e ligações suspeitas
Outro aspecto que chamou a atenção da equipe de resgate foi o estado emocional do marido. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou que não percebeu nenhum tipo de desespero por parte do tenente-coronel, nem o viu chorando. Um segundo bombeiro também estranhou a conduta do marido porque ele "falava calmamente" ao telefone, questionava constantemente o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia que a vítima fosse retirada com urgência e levada imediatamente ao hospital.
Os socorristas ainda observaram que o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa. Entre os contatos realizados por Geraldo na manhã da ocorrência, um deles chamou a atenção da família da policial: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel. O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local. "Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo." Às 9h18, o desembargador reaparece no corredor e, às 9h29, após 11 minutos, o tenente-coronel surge vestindo outra roupa.
Entrada de policiais e posicionamento das defesas
Uma câmera de segurança registrou a entrada e a saída de três policiais no apartamento onde Gisele faleceu. Segundo uma testemunha, as agentes foram ao local cerca de 10 horas após a ocorrência para realizar a limpeza do imóvel. De acordo com a testemunha, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 do dia 18 de fevereiro, mesmo dia da morte, e entraram no local acompanhadas por uma funcionária do edifício.
As imagens mostram que elas permaneceram por aproximadamente 50 minutos e não saíram com objetos. As policiais serão ouvidas no decorrer da investigação. Em nota divulgada antes do laudo realizado após a exumação, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento.
Segundo os advogados, o oficial tem colaborado com as autoridades desde o início e permanece à disposição para auxiliar na elucidação dos fatos. Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.



