Castelo de Cartas do Master&cia Desaba: Maior Fraude Bancária do Brasil?
Castelo de Cartas do Master&cia Desaba em Maior Fraude

O Desmoronamento do Castelo de Cartas no Sistema Financeiro Brasileiro

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia alertado há mais de uma semana sobre a possibilidade de estarmos diante da maior fraude bancária da história do Brasil. Agora, com o desabamento do castelo de cartas do Master&cia, suas palavras ganham um peso cada vez mais sombrio e real. A cada nova revelação, fica evidente que o modelo de open finance incentivado durante a gestão do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entre janeiro de 2019 e dezembro de 2024, pavimentou o caminho para uma crise de proporções alarmantes.

Expansão Desregulada e Riscos Sistêmicos

O estímulo à proliferação de fintechs com capitalização insuficiente e alavancagem excessiva em papéis de qualidade duvidosa, muitas vezes sem a devida supervisão do Banco Central, criou uma bolha que agora explode. Desde o final de 2024, análises já apontavam os perigos assumidos pelo Banco Master, que operava às custas do Fundo Garantidor de Crédito, transformando-se em um verdadeiro iceberg à deriva no Sistema Financeiro Nacional.

O modelo de negócios adotado pelo Master, replicado por diversas fintechs e instituições de menor porte com o aval implícito do FGC, distorceu completamente a competição de mercado. Em um cenário de desigualdade flagrante, até gigantes como o BTG Pactual serviram como escada para a colocação de papéis de alto rendimento do Master&cia, em troca de generosas taxas de operação.

Lucros Privados, Riscos Públicos

Instituições como XP, Nubank e Genial seguiram o mesmo roteiro: embolsaram lucros substanciais, enquanto transferiam integralmente os riscos para o FGC. Os balanços de 2025, divulgados recentemente por Santander, Itaú e Bradesco, revelam números impressionantes, mas também expõem vulnerabilidades. O Itaú registrou lucro líquido recorrente de R$ 46,830 bilhões, superando em 75% os R$ 26,652 bilhões do Bradesco.

No entanto, ambos os bancos foram penalizados pela Resolução Banco Central/CMN 4.966/21, que obrigou o aumento de baixas em operações com atraso superior a 90 dias. O Itaú teve baixas líquidas de R$ 38,9 bilhões, mantendo um estoque de R$ 56 bilhões em provisões para devedores duvidosos. O Bradesco, por sua vez, registrou baixas de R$ 33,172 bilhões e encerrou o ano com provisões de R$ 56,2 bilhões.

Alavancagem Abusiva e Lastros Fictícios

Enquanto isso, o Master e congêneres operavam com alavancagens abusivas, aproveitando-se da flexibilização prudencial implementada durante a pandemia de Covid-19 e dos juros artificialmente baixos mantidos a 0,2% ao ano. Atuando nas sombras do sistema, assumiram riscos colossais sob a proteção do FGC ou com lastros fictícios, como títulos de precatórios judiciais e fundos de investimento em direitos creditórios.

Dados da Anbima de novembro mostram um saldo de R$ 7,731 trilhões em recursos administrados por fundos de investimento. Metade estava aplicada em títulos do Tesouro Nacional, mas R$ 171,6 bilhões estavam alocados em FIDCs e R$ 652,9 bilhões em Letras Financeiras diversas, incluindo as do agronegócio isentas de imposto de renda.

Falta de Regulação e Lições do Passado

Em um mercado pouco regulado e com tributação reduzida, montagens de carteiras sem lastro e alavancagens extremas proliferaram, reminiscentes do mercado aberto dos anos 1970. Foi necessária a edição da Resolução 366, em abril de 1976, seguida pela Resolução 386, para impor aumentos de capital e reduzir índices de alavancagem, evitando um estouro duplo no mercado de títulos e na bolha imobiliária.

Essas medidas preveniram uma crise similar à que assolou os Estados Unidos em 2008. No entanto, a pergunta que permanece é: por que parte do mercado insiste em operar com títulos podres e sem registro adequado?

Operações Opacas e Lavagem de Dinheiro

O caso do fundo Reag, liquidado pelo Banco Central na esteira do Master e envolvido em lavagem de dinheiro descoberta pela Operação Carbono Oculto, é sintomático. Declarando um patrimônio de R$ 45 bilhões no final de 2025, o fundo operava em total falta de transparência. O relaxamento das regras de compliance durante a gestão Campos Neto permitiu que a jogatina corre solta.

Empresas ligadas ao Reag chegaram a lançar certificados de Unidades de Estoque de Carbono, supostamente equivalentes a toneladas de carbono mantidas em uma fazenda no Amazonas. A propriedade, no entanto, era objeto de grilagem e apresentava dupla contagem de valores, revelando uma operação destinada a lavar dinheiro e fugir da tributação.

O Banco Regional de Brasília agora precisa explicar como aceitou R$ 12,2 bilhões em créditos sem lastro do Master, necessitando de um aporte de capital de R$ 5 bilhões para cobrir os rombos. As investigações continuam, mas uma coisa é certa: o castelo de cartas construído sobre alicerces frágeis desabou, e o sistema financeiro brasileiro enfrenta seu maior teste de resiliência em décadas.