Orelhão, ícone brasileiro, caminha para extinção com fim das concessões de telefonia
Orelhão, símbolo brasileiro, desaparece com fim das concessões

Orelhão, ícone brasileiro, caminha para extinção com fim das concessões de telefonia

O orelhão, um símbolo tipicamente brasileiro que recentemente ganhou destaque no cinema, está prestes a desaparecer do cenário urbano. Com o encerramento das concessões públicas para as empresas de telefonia entre 2025 e 2026, não será mais possível manter um produto considerado obsoleto na era dos smartphones. Uma era da comunicação coletiva dá lugar definitivamente à experiência digital e individual.

Fama tardia e destino inglório

O equipamento ganhou fama global tardiamente, justamente no momento em que seu fim se aproxima. O orelhão, invenção brasileira, ficou conhecido internacionalmente através do principal pôster do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencedor de dois Globos de Ouro. Na cena, o personagem de Wagner Moura aparece utilizando o característico aparelho vermelho.

Na virada de 2025 para 2026, chegou ao fim a concessão pública das cinco empresas responsáveis pela manutenção dos telefones públicos. Isso encerra um modelo que, por décadas, representou o acesso universal à comunicação no país. Até então, as operadoras eram obrigadas a conservar os aparelhos, que caíram em desuso com a popularização dos celulares.

Declínio silencioso e números irrisórios

Atualmente, restam apenas 38 mil unidades em todo o território nacional. Esse número é irrisório quando comparado ao auge do serviço, nos anos 2000, quando existiam mais de 1 milhão de orelhões espalhados pelo Brasil. O desaparecimento repete fenômeno semelhante ao das cabines vermelhas de Londres, que só não foram totalmente retiradas por se tornarem ícones turísticos.

O processo de desmanche, embora esperado, ocorreu de forma silenciosa. Desde 2014, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vinha flexibilizando as obrigações das operadoras, permitindo a retirada gradual dos aparelhos. Muitos foram vandalizados, diante da queda contínua no volume de chamadas e do aumento dos custos de conservação.

História revolucionária e design icônico

O surgimento dos primeiros telefones públicos nas ruas brasileiras representou uma verdadeira revolução na comunicação. Os orelhões permitiam que, com apenas uma ficha ou cartão, fosse possível fazer chamadas locais ou de longa distância, em uma época em que telefones fixos custavam o preço de um automóvel.

Criado pela designer sino-brasileira Chu Ming Silveira, o equipamento ganhou formato oval – descrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade como uma cuia invertida – para garantir melhor acústica. Tornou-se ícone do espaço público, cenário de ligações apressadas, filas improvisadas e pontos de encontro.

Futuro limitado e mudança tecnológica

Permanecerão, até 2028, apenas os telefones instalados em localidades remotas, como áreas rurais, comunidades isoladas e regiões da Amazônia Legal, onde a cobertura móvel ainda é precária. Nestes casos, o orelhão continua classificado como serviço essencial.

Nos centros urbanos, o fim é iminente. A Vivo, responsável pela maior parte dos orelhões ainda em pé, esclarece que a Anatel migrou o regime do serviço de concessão para mera autorização. Segundo a empresa, os investimentos serão concentrados em novas tecnologias como 4G, 5G e ampliação da infraestrutura de fibra óptica.

Símbolo que resiste até o último momento

Os poucos orelhões que ainda resistem funcionam com chamadas gratuitas, já que não existem mais fichas nem cartões em circulação. Para as empresas, tornou-se mais barato liberar o uso do que investir em sistemas de cobrança para um serviço quase abandonado.

A retirada definitiva evidencia como a conectividade deixou de ser um serviço coletivo, ancorado no espaço físico, para se tornar uma experiência individual, portátil e digital. O orelhão entra para a história como símbolo de uma era que chegou ao fim, mas que permanece na memória afetiva dos brasileiros.