O mineiro Jeff Santos, natural de Divinópolis, entrou para um grupo seletíssimo de aventureiros globais ao concluir a chamada Tríplice Coroa das Trilhas. O feito, alcançado por menos de mil pessoas em todo o mundo, consiste em percorrer na íntegra as três maiores rotas de caminhada de longa distância dos Estados Unidos: a Appalachian Trail, a Pacific Crest Trail e a Continental Divide Trail.
Uma Jornada que Começou na Saúde Mental
A semente dessa aventura épica foi plantada em um momento de profunda dificuldade pessoal. Em 2015, enfrentando uma forte crise de depressão, Jeff encontrou na caminhada uma ferramenta para buscar equilíbrio. "Eu estava passando por uma crise muito forte. Resolvi caminhar para tentar me ajudar nesse processo de recuperação", relembra o aventureiro em entrevista.
Seu ponto de partida foi o Caminho da Fé, uma rota de aproximadamente 420 km no interior de São Paulo. O gosto pelo desafio cresceu com a Estrada Real e outras trilhas brasileiras, até que, em 2017, ele partiu para seu primeiro grande desafio internacional: a Appalachian Trail, com seus 3.500 km.
A empreitada começou de forma quase ingênua. "Eu nunca tinha acampado na vida. Minha primeira noite em uma barraca foi já na Appalachian. Testei o equipamento no sítio da minha irmã e fui", confessa Jeff. Apesar da falta de experiência inicial, ele não parou mais. A Pacific Crest Trail foi conquistada em 2019, e a coroação veio em 2025 com a conclusão da desafiadora e isolada Continental Divide Trail.
Os Desafios da Solidão Extrema e a Transformação Pessoal
A última etapa, a Continental Divide, apresentou um obstáculo singular: a solidão extrema. Enquanto milhares tentam a Appalachian anualmente, menos de 500 se aventuram na Continental. "No Novo México, eu andava dias sem ver uma única pessoa. Em Montana, que é metade do tamanho de Minas Gerais, mora menos gente do que em Belo Horizonte. É muito isolado", relata.
Para enfrentar o silêncio esmagador, Jeff encontrou refúgio na interação com seu público na internet, gravando vídeos e lendo comentários quando alcançava alguma cidade com sinal. Essa conexão virtual foi um fio de companhia nos momentos mais difíceis.
A jornada de mais de 12 mil quilômetros transformou não apenas sua geografia interna, mas também sua abordagem física. O Jeff que iniciou as trilhas com excesso de confiança e equipamento pesado deu lugar a um caminhante mais sábio. "O Jeff de 2007 achava que já sabia muito... Quando fui para a Appalachian repeti que sabia tudo, e descobri que não sabia nada", reflete. Na última travessia, ele priorizou a melhor condição física, evitando as lesões que sofreu no passado.
Os Números da Proeza e a Vida Após a Trilha
A soma das três travessias resulta em números impressionantes: 12.046 km percorridos, um desnível acumulado equivalente a subir o Everest 46 vezes, 17 milhões de passos, 11 pares de tênis gastos e uma perda de 34 kg. No entanto, para Jeff, a verdadeira métrica do sucesso é intangível.
"A maior conquista é interna. Caminhar me salvou, me fortaleceu e me levou para lugares onde eu nunca imaginei chegar", afirma. Ele também experimenta a comum depressão pós-trilha, sentindo a estranheza de retornar ao ritmo acelerado e aos excessos de estímulos da vida urbana após meses de uma rotina simplificada: caminhar, comer e dormir.
Além de aventureiro, Jeff é escritor, com três livros publicados sobre suas experiências e um quarto, sobre a Continental Divide Trail, previsto para 2026. Hoje, ele dedica-se a compartilhar seu aprendizado em palestras e projetos culturais, inspirando outros a encontrarem propósito no contato com a natureza.
"Completar a Tríplice Coroa me mostrou que o mais importante não é o destino, e sim o caminho. Quando a gente segue em frente, um passo de cada vez, tudo se resolve", finaliza o mineiro, cuja história é um testemunho poderoso de resiliência e autoconhecimento.