Ilha da Trindade: Como a natureza se recuperou após 30 anos sem cabras
Recuperação da Ilha da Trindade após extermínio de cabras

Ilha da Trindade: A surpreendente recuperação da natureza após décadas de devastação

Localizada a impressionantes 1.160 quilômetros da costa brasileira, a Ilha da Trindade representa o ponto mais remoto do litoral nacional. Este território isolado, que integra uma Área de Proteção Ambiental (APA) sob controle rigoroso da Marinha, abriga uma rotina peculiar de até 46 pessoas, entre militares e pesquisadores, que permanecem em períodos de até quatro meses. A jornada até a ilha demanda quatro dias de viagem a bordo de um navio de guerra, destacando seu caráter inacessível e preservado.

O legado destrutivo das cabras e a resiliência ambiental

No século XVIII, o astrônomo Edmond Halley, famoso por descobrir o Cometa Halley, introduziu cabras na Ilha da Trindade durante uma expedição que incluía paradas em Santa Helena. A intenção era nobre: garantir alimento para possíveis náufragos que chegassem ao local. Contudo, essa ação desencadeou um desastre ecológico de proporções catastróficas. As cabras, com seus hábitos alimentares vorazes e o pisoteio constante, devastaram quase toda a vegetação nativa, reduzindo a cobertura florestal de estimados 85% para menos de 5% ao longo dos séculos.

O professor Paulo Câmara, do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília (UnB), explica que esses animais consomem praticamente tudo, incluindo raízes, sementes e frutos, além de causarem danos físicos ao solo. A situação tornou-se tão crítica que, conforme alertou o professor Ruy Valka Alves do Museu Nacional, a própria água potável da ilha estava ameaçada, dependente da vegetação para sua preservação. Isso motivou a Marinha a agir após anos de negociações e estudos.

O árduo processo de erradicação e o monitoramento científico

As tentativas de eliminar as cabras invasoras começaram em 1957, com esforços intensificados nas décadas de 1990 e 2000. Devido ao relevo acidentado da ilha, que dificultava o acesso, apenas cerca de 200 animais foram removidos em 2002, de uma população estimada em 800. Finalmente, em 2005, após mais de três décadas de projetos de erradicação, os últimos caprinos foram eliminados, marcando o início de uma nova era para Trindade.

Em 2014, um estudo piloto iniciou o monitoramento da floresta degradada, e em 2023, a pesquisadora Márcia Gonçalves, do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana do Museu Nacional (UFRJ), integrou a equipe. Utilizando imagens, sensoriamento remoto e dados históricos, os cientistas reconstruíram a evolução da paisagem ao longo de 30 anos. "Nós passamos a medir a evolução da floresta. Reunimos imagens e dados de expedições anteriores, com marcação de pontos de vegetação onde sabíamos o que havia e o que não havia", detalhou Márcia.

Resultados impressionantes e projeções futuras

As análises revelaram um cenário de recuperação notável. Em comparação com o período em que a ilha tinha menos de 5% de vegetação, a área verde avançou 1.468%, equivalente a 65 hectares. A vegetação rasteira expandiu-se em 325 hectares, um aumento de 319%. Atualmente, estima-se que a cobertura vegetal cubra cerca de 15% da antiga área verde, com espécies endêmicas que chegaram a ter menos de 10 indivíduos agora alcançando populações de até 100.

Márcia Gonçalves destacou a resiliência do ambiente: "É surpreendente a resiliência do ambiente de uma ilha, que costuma ser muito mais sensível, apresentar uma capacidade de regeneração sem interferência humana. Nos mostra que as espécies exóticas precisam ser tratadas com a devida atenção". Até mesmo uma cachoeira, mencionada em relatos do século XVII, ressurgiu após décadas oculta, simbolizando a transformação positiva.

O estudo, publicado em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science com o título "From Disturbance to Recovery: Unveiling the Role of Goats and Ecological Drivers on Vegetation Dynamics of Trindade Island, South Atlantic, Brazil", continuará em andamento. Os pesquisadores projetam a cobertura florestal para 2125, baseando-se em dados coletados por Márcia Gonçalves, Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves e Nílber Gonçalves da Silva. "Mesmo nesses três anos foi possível perceber a diferença de cobertura, quando a gente olha para fotos mais antigas então, é muita diferença", afirmou Márcia, após dez visitas à ilha desde 2023.

Lições para a conservação e o futuro de Trindade

A experiência da Ilha da Trindade serve como um alerta poderoso sobre os impactos das espécies invasoras e a importância do manejo ambiental cuidadoso. A regeneração natural, embora lenta, demonstra a capacidade de ecossistemas isolados de se recuperarem quando as pressões são removidas. Com sua biodiversidade única, incluindo espécies que só existem no arquipélago formado por Trindade e Martin Vaz, a ilha permanece um laboratório vivo para estudos ecológicos e um símbolo de esperança para a conservação marinha e terrestre no Brasil.