Cientistas alertam: planeta pode ter cruzado ponto de não retorno na crise climática
Planeta pode ter cruzado ponto de não retorno climático

Cientistas alertam: planeta pode ter cruzado ponto de não retorno na crise climática

Análises recentes indicam que o aquecimento global já rompeu, na prática, o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, um patamar crítico estabelecido pelo Acordo de Paris. Pesquisadores temem que esse avanço possa acionar pontos de inflexão irreversíveis no sistema da Terra, levando a mudanças abruptas e catastróficas.

O cenário de overshoot e seus riscos iminentes

Dados consolidados dos últimos três anos mostram que a temperatura média global manteve-se acima de 1,5°C por um período prolongado, com 2024 registrando 1,55°C e 2023 e 2025 próximos desse nível. Isso sugere que o mundo entrou em um cenário de overshoot, onde o aquecimento excede metas acordadas e opera fora do controle humano. A avaliação, publicada pelo Yale Environment 360, alerta para o colapso de sistemas naturais essenciais, como a Amazônia e as calotas polares.

Pontos de inflexão e o colapso dos sistemas naturais

O temor central dos cientistas não é apenas o aumento gradual das temperaturas, mas a possibilidade de mudanças súbitas e irreversíveis. Johan Rockström, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Impacto Climático de Potsdam, afirma que a capacidade da natureza em absorver danos está se esgotando. Sistemas sob alto risco incluem:

  • As grandes calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental.
  • A floresta amazônica, que pode liberar bilhões de toneladas de CO₂.
  • Os recifes de coral tropicais, com risco de extinção até meados do século.
  • A circulação oceânica do Atlântico Norte (AMOC), crucial para o clima europeu e norte-americano.

Enfraquecimento dos sumidouros de carbono

Por décadas, ecossistemas terrestres e marinhos absorveram cerca de metade do CO₂ emitido pela atividade humana. No entanto, essa capacidade está em declínio acelerado. Secas extremas, incêndios florestais – que dobraram globalmente nas últimas duas décadas – e estresse térmico estão reduzindo a absorção de carbono. A floresta africana, por exemplo, já emite mais carbono do que absorve, e a Amazônia enfrenta um risco similar.

Impactos visíveis e custos econômicos

Os efeitos do aquecimento acelerado são cada vez mais evidentes. Ondas de calor letais intensificam-se na Índia, África e Oriente Médio, enquanto incêndios florestais sem precedentes atingem os Estados Unidos. Tempestades tropicais causam prejuízos crescentes, com eventos climáticos extremos custando mais de US$ 2 trilhões à economia global na última década, afetando cerca de 20% da população mundial.

Soluções tardias e dilemas perigosos

Diante desse cenário, estratégias como emissões negativas – incluindo reflorestamento, captura industrial de CO₂ e geoengenharia – são discutidas, mas parecem insuficientes em escala e velocidade. Para reduzir a temperatura global em apenas 0,1°C, seria necessário remover cerca de 200 bilhões de toneladas de CO₂, um desafio técnico e econômico monumental. Propostas controversas, como bloquear radiação solar, geram preocupações sobre efeitos imprevisíveis.

Resposta política frágil

Apesar da gravidade, a resposta política permanece limitada. Apenas em 2025, durante a conferência climática da ONU em Belém, negociadores reconheceram a necessidade de lidar com o overshoot, mas sem metas claras. Até hoje, apenas a Dinamarca estabeleceu um objetivo nacional de emissões negativas, destacando a urgência de ações mais robustas e coordenadas globalmente.