Estudo da Unicamp alerta: Aquecimento global pode extinguir anfíbios da Mata Atlântica em 50 anos
O avanço do aquecimento global representa uma ameaça crítica para a biodiversidade da Mata Atlântica, com risco de provocar a extinção de diversas espécies de anfíbios nos próximos cinquenta anos. Esta é a conclusão alarmante de uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que analisou dados detalhados de 6.732 espécies de plantas, vertebrados e invertebrados deste bioma, reconhecido como um dos mais ricos em diversidade biológica do planeta.
Anfíbios de altitude elevada são os mais vulneráveis
O estudo, publicado em 2025 na renomada revista científica Global Change Biology, indica que sapos, rãs e pererecas que habitam regiões de grande altitude estão entre os grupos mais ameaçados. Estes animais possuem uma capacidade de dispersão extremamente limitada e dependem de forma crucial das condições térmicas do ambiente para sua sobrevivência.
A pesquisa, totalmente brasileira, foi desenvolvida pelo biólogo Cleber Chaves durante seu pós-doutorado no Instituto de Biologia da Unicamp, sob a orientação da professora Clarisse Palma-Silva. Os cientistas cruzaram dois conjuntos fundamentais de informações: dados de ocorrência das espécies, que mapeiam sua distribuição geográfica, e dados fisiológicos de tolerância térmica, que medem quanto calor e frio cada organismo consegue suportar.
Metodologia robusta e projeções climáticas preocupantes
Enquanto os dados de ocorrência abrangeram todas as 6.732 espécies analisadas, os testes fisiológicos foram realizados em 153 espécies, exigindo experimentos laboratoriais complexos. Estas informações foram combinadas com projeções climáticas para o período entre 2060 e 2080, que preveem um aumento médio de temperatura de até 3°C na Mata Atlântica, mesmo em cenários considerados otimistas de controle das emissões de gases do efeito estufa.
"Mesmo no cenário mais otimista, os resultados são alarmantes", afirma a orientadora Clarisse Palma-Silva, destacando a gravidade das constatações.
Êxodo climático e migração impossível
Com esse aquecimento projetado, os pesquisadores identificaram uma tendência clara de deslocamento massivo de espécies, especialmente das regiões mais quentes e baixas do bioma. Áreas como o platô do rio Paraná, no oeste paulista, estão entre as mais susceptíveis a perder biodiversidade nas próximas décadas.
Plantas e animais tenderiam a migrar para regiões de maior altitude em busca de temperaturas mais amenas, com destinos projetados incluindo a Serra do Mar, a Serra da Mantiqueira e a Serra do Espinhaço. No entanto, para espécies com distribuição restrita, especialmente aquelas que vivem no topo das montanhas, seria necessário subir aproximadamente 500 metros em altitude ou percorrer cerca de 30 quilômetros horizontalmente para encontrar condições adequadas.
Para anfíbios de pequeno porte e baixa capacidade locomotora, essa jornada através de paisagens fragmentadas torna-se praticamente inviável, elevando drasticamente o risco de extinção local e, em muitos casos, total.
Por que os anfíbios são tão sensíveis?
Os anfíbios são animais ectotérmicos, incapazes de regular sua temperatura corporal internamente, o que os torna extraordinariamente sensíveis às variações térmicas ambientais. Muitas dessas espécies vivem confinadas a altitudes elevadas, em pequenos trechos montanhosos como a Serra do Espinhaço, já próximas do limite máximo de temperatura que conseguem tolerar.
"Então, a maioria desses organismos que são tão restritos, a gente viu que são anfíbios, que são sapos e pererecas de topo de montanha, principalmente", explica Cleber Chaves, autor principal do estudo.
Números que assustam: taxas de extinção projetadas
O estudo não fornece um número absoluto de espécies ameaçadas, mas apresenta proporções preocupantes baseadas nas análises realizadas. Ao considerar os locais de ocorrência das 6.732 espécies, os pesquisadores estimam que, em cenário moderado de aquecimento, plantas e animais podem perder em média 13% de sua área de distribuição. Em cenário extremo, essa perda pode alcançar 27%.
Já ao analisar as 153 espécies com dados fisiológicos, as projeções indicam taxas de extinção local de aproximadamente 8% até o final do século, mesmo em cenários considerados controlados. O agravante é que muitas dessas espécies são microendêmicas, existindo exclusivamente na Mata Atlântica, transformando qualquer extinção local em desaparecimento definitivo.
Espécies resilientes e riscos da migração em massa
O estudo também identificou organismos com maior resiliência às mudanças climáticas, como algumas aves (tucanos), grandes mamíferos (antas) e plantas com ampla tolerância térmica e capacidade de dispersão. No entanto, o deslocamento massivo de espécies traz seus próprios perigos.
A chegada de novos organismos em regiões de refúgio climático pode intensificar a competição por recursos, aumentar a predação e gerar conflitos ecológicos, ameaçando espécies já estabelecidas nesses habitats. Este efeito em cadeia pode amplificar ainda mais a perda de biodiversidade, mesmo em áreas inicialmente consideradas seguras.
Estratégias urgentes de conservação
Diante deste cenário preocupante, a pesquisa enfatiza a necessidade imediata de criação de corredores ecológicos, especialmente nas regiões de maior altitude da Mata Atlântica. Estas conexões entre fragmentos florestais permitiriam que plantas e animais se deslocassem com maior segurança frente ao avanço do aquecimento global.
As estratégias de conservação devem considerar dois fatores cruciais: a tolerância térmica das espécies e sua capacidade de dispersão. Sem esta abordagem integrada, áreas protegidas isoladas podem se mostrar insuficientes para prevenir extinções em larga escala, colocando em risco um dos biomas mais importantes e ameaçados do Brasil.