Calor extremo nas favelas: temperaturas batem 47°C e moradores invertem rotina
Favelas sofrem com calor extremo acima de 40°C

O verão de 2025 no Brasil está sendo marcado por ondas de calor intensas, mas o impacto não é igual para todos. Enquanto termômetros ultrapassam os 40°C em diversas cidades, são os moradores das comunidades e favelas que enfrentam as condições mais extremas e perigosas, com sensações térmicas que chegam a atingir 50°C.

Dados confirmam o que o corpo sente: favelas são mais quentes

O que antes era uma percepção dos moradores, agora é comprovado por números. Uma estação meteorológica instalada em setembro no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, monitora o clima em 20 favelas através do projeto Observatório do Calor, da ONG Voz das Comunidades. Os dados são alarmantes.

No Alemão, foi registrada a maior temperatura do ano no Rio: 42,2°C, com sensação térmica chegando a 50°C em áreas da Zona Norte. A geógrafa Gabriela Conc, envolvida no projeto, defende que "o meu território precisa ser observado com outros olhos". A disparidade é gritante: enquanto regiões do Alemão com vegetação marcaram cerca de 34°C, áreas totalmente cimentadas atingiram 47°C.

Rotina invertida e saúde em risco nas comunidades

Para sobreviver ao calor, os moradores precisam reinventar seu dia a dia. O pedreiro Marcelo Grego relata a mudança radical: "O meu normal é trabalhar de dia e descansar à noite. Eu tô invertendo: eu tô trabalhando à noite pra descansar o dia porque o dia tá terrível". A realidade nas casas é de sofrimento. Margarete Galdino, da Baixada Fluminense, resume: "Muito quente. Não dá pra ficar dentro de casa". Seu filho, Fabrício, reforça: "Não tô suportando. Muito calor de rachar mesmo".

As condições estruturais agravam o problema: becos sem ventilação, falta de vegetação, casas coladas umas nas outras e o uso de telhas de zinco e amianto, que armazenam e transferem calor para o interior. Em São Paulo, na comunidade de Paraisópolis, a faxineira Tamires de Carvalho conta que o ventilador fica ligado vinte e quatro horas. Lá, a temperatura chegou a 45°C, enquanto no arborizado Morumbi, próximo, os termômetros marcavam 30°C.

Os riscos à saúde são concretos e preocupantes. A médica Tainara Tapezzini explica que o calor extremo pode causar desde desidratação e exaustão até quadros graves com vômitos e desmaios. Hospitais já registram aumento nos atendimentos relacionados. Pesquisadores alertam que quando a temperatura passa dos 32°C, o risco de morte aumenta em 50%.

Um problema climático e social que exige políticas públicas

O fenômeno, classificado como estresse térmico pela Fiocruz, é agravado pela falta de árvores e excesso de concreto nas grandes cidades. Estudos apontam que a temperatura média em mais de 1.300 favelas paulistas ultrapassou os 40°C neste verão. A solução, portanto, não é apenas climática, mas social, exigindo políticas públicas específicas.

Especialistas sugerem intervenções como melhor ventilação, implantação de tetos verdes e pintura das casas com cores claras para refletir o calor. O objetivo do monitoramento feito pelo Observatório do Calor é justamente transformar dados em melhorias estruturais para essas comunidades.

O cenário global, segundo o IPCC da ONU, é de ondas de calor mais frequentes e intensas. Dados do Instituto Copernicus confirmam que 2023, 2024 e 2025 foram os anos mais quentes da história, com aquecimento de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. No Brasil, as favelas, onde vive uma parcela significativa da população, são as que mais sentem e sofrerão com esse novo normal climático.