Expansão histórica da energia nuclear é impulsionada pela fome energética da inteligência artificial
A expansão acelerada da inteligência artificial transformou a energia elétrica em um gargalo estratégico da economia digital global. Data centers que treinam e mantêm sistemas de IA consomem volumes de eletricidade comparáveis aos de países inteiros, recolocando a energia nuclear no centro das decisões energéticas mundiais.
Projeções recordes para 2050
Segundo o relatório World Nuclear Outlook apresentado pela Associação Nuclear Mundial, os planos já anunciados por governos podem levar a capacidade nuclear global a aproximadamente 1.446 gigawatts até 2050. Atualmente, a soma de toda a potência dos reatores em operação está na faixa de 370 a 380 gigawatts elétricos.
Este tema foi amplamente debatido no Fórum Econômico Mundial de Davos em 2026, onde executivos de grandes empresas de tecnologia, líderes políticos e representantes de organismos globais parecem alinhados em um diagnóstico comum: enquanto algoritmos avançam em ritmo explosivo e chips ficam mais poderosos, a infraestrutura elétrica se tornou o verdadeiro gargalo da era da inteligência artificial.
Por que a IA revitalizou o interesse na energia nuclear
Durante boa parte das últimas décadas, a energia nuclear perdeu espaço no debate energético global. Após o crescimento acelerado entre os anos 1960 e 1980, o setor entrou em um longo período de estagnação, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Acidentes nucleares históricos consolidaram na opinião pública a percepção de que se tratava de uma fonte perigosa, cara e ambientalmente problemática.
A combinação de vários fatores fez governos revisitarem a fonte nuclear com outro olhar:
- Crise climática e necessidade de reduzir emissões rapidamente
- Instabilidade geopolítica nos mercados de energia
- Explosão da demanda elétrica puxada pela inteligência artificial
A energia nuclear passou a ser vista menos como vilã ambiental e mais como uma das poucas fontes capazes de gerar energia em grande escala sem emitir CO₂ de forma contínua.
Mais de 50 países com projetos nucleares em andamento
Segundo o relatório, mais de 50 países estão avançando com projetos nucleares atualmente. As estratégias incluem:
- Estender a vida útil de usinas antigas
- Construir novos reatores de grande porte
- Apostar nos pequenos reatores modulares (SMRs), vendidos como mais rápidos de instalar e mais flexíveis para diferentes regiões
Treinar grandes modelos de IA, manter sistemas generativos funcionando 24 horas por dia e sustentar a expansão de serviços digitais exige uma oferta de energia estável que fontes intermitentes sozinhas ainda não conseguem garantir completamente.
Prós e contras que permanecem em debate
Os principais argumentos a favor da energia nuclear nesta nova fase são objetivos:
- Produção de energia de forma contínua, ajudando a estabilizar sistemas elétricos
- Emissão de carbono ao longo do ciclo de vida comparável à da energia eólica
- Capacidade de geração concentrada em uma única instalação
No entanto, os desafios e riscos continuam significativos:
- Impacto ambiental e social devastador em caso de acidentes nucleares
- Problema dos resíduos radioativos sem solução definitiva em muitos países
- Custos de construção extremamente elevados com frequentes atrasos
- Temor ligado à proliferação nuclear para fins militares
Mesmo com esses desafios, o volume de metas anunciadas por governos ao redor do mundo indica que muitos estão dispostos a correr os riscos associados à energia nuclear. A pressão vem tanto da crise climática quanto da explosão da demanda elétrica puxada pela inteligência artificial, criando um cenário onde o átomo é visto como pilar fundamental da transição energética digital.