Investimento global em energia limpa atinge US$ 2,3 trilhões em 2025, mas ritmo preocupa
Energia limpa bate recorde, mas crescimento desacelera globalmente

Investimento global em energia limpa atinge US$ 2,3 trilhões em 2025, mas ritmo preocupa

O cenário mundial da transição energética apresentou um paradoxo marcante no ano de 2025. Por um lado, os aportes globais em tecnologias limpas bateram um recorde histórico, alcançando a impressionante cifra de US$ 2,3 trilhões, conforme levantamento da BloombergNEF. Por outro, o crescimento anual de 8% representou o primeiro avanço de um dígito desde 2019, sinalizando uma desaceleração preocupante diante da urgência climática.

Distribuição geográfica desigual: Ásia e Europa na liderança

A análise regional revela disparidades significativas no compromisso com a descarbonização. A região Ásia-Pacífico respondeu por quase metade de todo o investimento global, com destaque absoluto para a China, seguida por Índia e Japão. A União Europeia registrou um crescimento robusto de 18%, alcançando US$ 455 bilhões, impulsionada por suas metas climáticas ambiciosas e pela busca de independência energética após a guerra na Ucrânia.

Em contraste, os Estados Unidos apresentaram um desempenho mais modesto, com crescimento de apenas 3,5%, totalizando US$ 378 bilhões. Analistas atribuem essa desaceleração ao governo de Donald Trump, que reduziu o apoio federal a tecnologias limpas e impôs obstáculos regulatórios à expansão das renováveis. Parte do investimento americano ainda reflete projetos e incentivos contratados em anos anteriores, além de iniciativas estaduais e privadas que mantiveram algum fôlego no setor.

Composição dos investimentos e setores em destaque

Do total recorde investido em 2025, cerca de US$ 1,2 trilhão foi direcionado a energias renováveis e redes elétricas, setores considerados fundamentais para atender à demanda crescente por eletricidade, especialmente impulsionada por data centers e aplicações de inteligência artificial. O transporte eletrificado, incluindo veículos elétricos e infraestrutura de recarga, atraiu outros US$ 893 bilhões, com crescimento concentrado principalmente na Ásia e na Europa.

Paralelamente, os investimentos em combustíveis fósseis registraram uma queda global, puxada principalmente pela retração nos gastos com exploração e produção de petróleo e gás. Foi a primeira redução desde 2020, indicando uma inflexão relevante, embora ainda distante do ritmo necessário para cumprir as metas do Acordo de Paris.

Sinais de alerta e desafios estruturais

Apesar do recorde agregado, os dados revelam pontos de preocupação. O investimento global em energias renováveis caiu 9,5% em relação a 2024, refletindo sobretudo mudanças regulatórias na China, maior mercado do mundo. A reforma das regras no país reduziu o ritmo de novos projetos e levou à primeira queda nos investimentos chineses em transição energética desde 2013.

Outros segmentos estratégicos também perderam fôlego. O investimento em hidrogênio de baixo carbono recuou, assim como os aportes em energia nuclear, apesar do interesse crescente de empresas de tecnologia em fontes capazes de fornecer eletricidade constante para data centers. Essa desaceleração sugere que o entusiasmo político e corporativo ainda não se traduziu em modelos de negócio suficientemente robustos para sustentar a expansão em larga escala.

Meta climática exige esforço redobrado

Especialistas alertam que o volume atual de recursos, embora recorde, permanece insuficiente para colocar o mundo na trajetória necessária para alcançar a neutralidade de carbono até meados do século. Para cumprir os compromissos climáticos e evitar os piores impactos do aquecimento global, o investimento anual em transição energética precisaria mais que dobrar, alcançando cerca de US$ 5,2 trilhões por ano até o fim da década.

O contraste entre o recorde absoluto e a insuficiência estrutural dos investimentos resume o dilema da transição energética em 2026. O capital segue fluindo, e a transformação do sistema energético é real, mas a velocidade permanece aquém da urgência imposta pela crise climática. A eletrificação da economia, apontada por organismos como a Agência Internacional de Energia (IEA) como o principal vetor da descarbonização nesta década, enfrenta agora o desafio de acelerar seu ritmo em um cenário geopolítico e econômico complexo.