Sistema Produtor Alto Tietê enfrenta crise hídrica com chuvas abaixo da média em janeiro
Crise hídrica no Alto Tietê: chuvas abaixo da média em janeiro

Sistema Produtor Alto Tietê enfrenta crise hídrica com chuvas abaixo da média em janeiro

O Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT), localizado no estado de São Paulo, está enfrentando uma situação crítica de abastecimento hídrico. Janeiro, tradicionalmente considerado o mês mais chuvoso do ano, não atingiu a média de precipitação esperada para os reservatórios da região.

Dados alarmantes sobre a precipitação

Segundo informações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), até o dia 30 de janeiro, o sistema registrou apenas 210,5 milímetros de chuva. Esse valor representa apenas 90,7% da previsão inicial, que era de 232,1 milímetros para o período.

O período entre dezembro e janeiro costuma registrar as maiores médias de precipitação na região do Alto Tietê, devido ao clima tropical de altitude predominante. No entanto, o volume de chuva está mais baixo do que o esperado, conforme explicou Abner Ulisses Bueno da Silva, mestre em ciências ambientais.

Sinais claros de crise hídrica

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já apontou que o SPAT apresenta sinais evidentes de crise hídrica. A recuperação satisfatória do sistema durante o período chuvoso não está garantida, mesmo com as pancadas de chuva e temporais registrados nas últimas semanas.

Um exemplo marcante ocorreu entre quarta e quinta-feira, quando o acumulado de chuva atingiu 410 milímetros entre Mogi das Cruzes e Suzano, causando enchentes e estragos de grandes proporções. No entanto, no SPAT, o registro foi de apenas 27,4 milímetros de chuva.

Problemas na distribuição das chuvas

Abner Ulisses Bueno da Silva destacou que a concentração das chuvas nas áreas urbanas não é por acaso. As cidades criam ilhas de calor que impedem a chuva de chegar às represas, acumulando-se nas regiões centrais.

"A cidade em si cria uma ilha de calor, um bolsão de ar, e quando a chuva chega nas áreas centrais, fica ali acumulada porque não consegue circular. Dessa maneira, ela não vai ter força para levar essa chuva para as áreas de represa", explicou o especialista.

Soluções sustentáveis para a crise

Ana Paula Koury, arquiteta e urbanista e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Klimapolis, defende a implementação de sistemas sustentáveis de drenagem como solução para a falta de água nos reservatórios e para as enchentes nas cidades.

Esse tipo de sistema se baseia no armazenamento da água da chuva em cavidades subterrâneas ou áreas alagáveis, permitindo a recarga dos aquíferos e o reaproveitamento pela população. "A gente foi educado a perceber a água como um recurso natural renovável, sempre disponível. Mas isso não significa que a gente pode ter uma relação perdurável com a água", afirmou Ana Paula.

Realidade das cidades do Alto Tietê

Uma pesquisa realizada com as cidades da região revelou que nenhuma delas possui uma rede interligada de drenagem com o abastecimento. No entanto, algumas ações visam a sustentabilidade na drenagem:

  • Mogi das Cruzes: Possui piscinões, mas a água armazenada não é tratada nem integrada à rede de abastecimento.
  • Guararema: Incentiva soluções de retenção e infiltração em imóveis particulares, sem conexão com reservatórios públicos.
  • Santa Isabel: Tem lei que incentiva o aproveitamento de águas pluviais, mas não possui piscinões.
  • Outras cidades: Biritiba-Mirim, Itaquaquecetuba e Suzano não possuem sistemas sustentáveis de drenagem ou piscinões, focando em limpezas de rios e córregos para evitar alagamentos.

Desafios e perspectivas futuras

A Sabesp informou que utiliza água de aquíferos captada por 55 poços em 21 municípios da região, mas não aproveita água de piscinões ou reservatórios de armazenamento de chuva para o abastecimento público.

Para implementar sistemas de drenagem sustentável, é necessário planejar o armazenamento, condução e retenção da água da chuva. Exemplos incluem caneletas, praças alagáveis e valetas que diminuem a velocidade da água, criando um sistema distribuído que pode economizar recursos e reduzir o calor extremo.

Ana Paula Koury concluiu que é preciso mudar a percepção sobre a água nas cidades, reaproveitando-a e integrando sistemas de drenagem com saneamento e despoluição. "É entender que a água da cidade tem que ser reaproveitada, todo o sistema de drenagem tem que estar ligado a um sistema de saneamento e despoluição", enfatizou a especialista.