Cientistas brasileiros e internacionais fizeram uma descoberta fascinante durante uma expedição na reserva florestal Alto da Figueira, localizada no município de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Eles identificaram uma nova espécie de fungo, batizada de Purpureocillium atlanticum, que infecta e mata aranhas de alçapão, um tipo de artrópode que constrói pequenas armadilhas no solo das florestas.
Uma descoberta de relevância internacional
O achado foi considerado tão significativo que foi eleito como uma das dez descrições de novas plantas ou fungos mais importantes do ano de 2025 em uma tradicional lista elaborada pelo Kew Gardens, o renomado jardim botânico de Londres, no Reino Unido. O nome Purpureocillium atlanticum faz referência à sua coloração arroxeada (púrpura) e ao local da descoberta, a exuberante Mata Atlântica brasileira.
O processo de infecção do fungo zumbi
O autor principal do estudo que descreve a nova espécie é o micologista brasileiro João Araújo, professor na Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Em entrevista, ele detalhou como o fungo age. Os esporos do Purpureocillium atlanticum perfuram o exoesqueleto da aranha de alçapão para chegar à hemolinfa, onde estão os órgãos e o 'sangue' do artrópode. Uma vez dentro, as células do fungo começam a se reproduzir rapidamente, tomando todo o corpo do hospedeiro.
"O fungo solta substâncias para lutar contra o sistema imunológico do hospedeiro, que acaba morrendo", explicou Araújo, que também é pesquisador associado honorário do Kew Gardens. O corpo de frutificação do fungo, conhecido como estroma, então cresce para fora do chão da floresta, liberando esporos para garantir a propagação da espécie.
Tecnologia de ponta na pesquisa
Para realizar uma análise tão detalhada, a equipe de pesquisadores utilizou uma ferramenta inovadora: o Oxford Nanopore. Este pequeno aparelho permite fazer o sequenciamento genético de seres vivos de forma portátil, diretamente no campo de pesquisa. A grande vantagem é poder usar a tecnologia no momento em que o fungo ainda está fresco, aumentando a probabilidade de obter uma sequência genética de alta qualidade.
Vasco Fachada, micologista do Kew Gardens, destacou a importância dessa abordagem. "O fato de o tecido do fungo ainda estar vivo aumenta a probabilidade de uma sequência genética de qualidade e de um estudo melhor", complementou ele.
Relação com os fungos zumbi da ficção
O termo "fungo zumbi" ganhou popularidade global a partir do lançamento da série de videogames e da adaptação televisiva The Last of Us. Na ficção, um fungo causa uma pandemia que transforma humanos em zumbis. Na vida real, dezenas de espécies catalogadas sob esse termo genérico já foram descritas pela ciência.
A mais famosa delas é o Ophiocordyceps, que inspirou os criadores da franquia. O Purpureocillium atlanticum está na mesma família do Ophiocordyceps, sendo considerado uma espécie 'prima'. No entanto, há diferenças comportamentais significativas.
Enquanto o Ophiocordyceps controla o sistema nervoso do inseto-hospedeiro, levando-o a morrer em lugares altos para facilitar a dispersão dos esporos, o Purpureocillium atlanticum não parece ter esse mecanismo. A aranha infectada por este fungo foi encontrada enterrada, com o esporo crescendo em direção ao solo, acima da camada de terra e folhas.
Nenhum risco para humanos
Apesar dos paralelos intrigantes entre a vida real e a ficção, os cientistas garantem que não há motivos para preocupação. O Purpureocillium atlanticum é especializado em infectar aranhas de alçapão e não representa nenhuma ameaça para seres humanos ou outras espécies. Sua ação é restrita a esse tipo específico de artrópode.
O vasto universo desconhecido dos fungos
No artigo que apresenta a nova descoberta, Araújo e seus colegas estimam que existam no mundo pelo menos 2,5 milhões de espécies diferentes de fungos. Surpreendentemente, apenas 10% delas já foram descritas pela ciência até o momento. Isso significa que há um imenso universo de fungos ainda por explorar e compreender.
"A primeira mensagem é que existe muito trabalho por fazer e há muito, muito desconhecido quando o assunto são os fungos", reforçou Fachada. Conhecer essa diversidade é estratégico, pois os fungos têm aplicações diretas na saúde humana e no desenvolvimento de soluções sustentáveis.
"Os fungos têm uma aplicação direta na saúde humana. O Purpureocillium mesmo, imagina a quantidade de bactérias, insetos e outros fungos com os quais ele precisa competir para sobreviver. Ele deve produzir muitos antibióticos potentes", especulou Araújo. O potencial de produção de novos compostos baseados em fungos que podem ser aproveitados na Medicina é enorme, mas ainda pouco explorado devido ao desconhecimento sobre muitas espécies.
O impacto da cultura pop na ciência
Curiosamente, Araújo vê na popularização dos fungos através de videogames e séries de TV uma esperança para acelerar os estudos nesse campo. "The Last of Us foi um divisor de águas, mudou completamente as coisas. Hoje percebo mais estudantes interessados em pesquisar os fungos", comemorou o cientista.
Ele ainda brincou sobre a beleza desses organismos: "E é um modo de vida incrível que esses fungos têm. Eles são fotogênicos, eles são lindos... Ao menos pelos meus olhos". Essa descoberta reforça a riqueza da biodiversidade brasileira e a importância contínua da pesquisa científica para desvendar os segredos da natureza.