Artefatos de 160 mil anos na China reescrevem a pré-história da Ásia
Uma descoberta arqueológica revolucionária no sítio de Xigou, na província de Henan, no centro da China, está transformando nossa compreensão sobre o desenvolvimento tecnológico humano na pré-história. Escavações revelaram um impressionante conjunto de 2.601 artefatos de pedra datados entre aproximadamente 160 mil e 72 mil anos atrás, conforme estudo publicado na renomada revista Nature Communications.
O que torna esta descoberta tão significativa?
Até recentemente, a visão predominante na arqueologia sustentava que técnicas mais elaboradas de produção de instrumentos, como a fixação de uma parte cortante a uma empunhadura – conhecida como tecnologia de ferramenta composta – teriam surgido primeiro na África e na Europa Ocidental, entre 300 mil e 50 mil anos atrás. Segundo essa interpretação, na Ásia esse tipo de domínio técnico só apareceria muito mais tarde, por volta de 40 mil anos atrás.
O achado chinês apresenta a evidência mais antiga já registrada no leste da Ásia de objetos produzidos com partes acopladas a cabos, desafiando diretamente essa narrativa estabelecida.
Análise detalhada dos artefatos
A maioria das peças, fabricadas principalmente de quartzo e quartzito, tem menos de 5 centímetros e foi identificada em fragmentos lascados. A análise do modo de fabricação indica que esses objetos não eram produzidos de forma simples ou casual.
O processo envolvia:
- Etapas intermediárias bem definidas
- Planejamento prévio cuidadoso
- Uma sequência organizada de ações
Os pesquisadores identificaram diferentes tipos de artefatos com funções variadas, incluindo instrumentos destinados especificamente a cortar, raspar e perfurar. Marcas microscópicas de desgaste na superfície sugerem que esses objetos foram usados para trabalhar materiais vegetais, como madeira e fibras semelhantes a juncos.
Evidências de tecnologia avançada
A principal evidência da técnica de acoplamento veio do formato e da padronização de algumas peças, que indicam claramente que elas eram fixadas a cabos para ampliar sua eficiência e controle de uso. Essa combinação de partes exige não apenas habilidade manual refinada, mas também:
- Antecipação do resultado final
- Compreensão do funcionamento do objeto completo
- Capacidade de planejamento abstrato
Repercussões para nossa compreensão da pré-história
O estudo aponta que esse desenvolvimento técnico coincide com evidências recentes de aumento no tamanho cerebral de hominínios que viveram na região nesse período. Para os autores da pesquisa, isso reforça a hipótese de que populações humanas na Ásia já apresentavam capacidades cognitivas e técnicas comparáveis às observadas em outras partes do mundo na mesma época.
Os achados sugerem que a história das inovações técnicas humanas pode ter sido mais distribuída geograficamente do que se imaginava anteriormente. Em vez de um avanço concentrado em determinadas regiões, diferentes grupos humanos podem ter desenvolvido soluções semelhantes de maneira paralela, em um período entre 160 mil e 72 mil anos atrás.
Esta descoberta não apenas reescreve a pré-história da Ásia, mas também oferece uma visão mais complexa e interconectada do desenvolvimento tecnológico humano em escala global, demonstrando que a inovação surgiu em múltiplos centros simultaneamente.