Indígenas ocupam acesso à Cargill em Santarém em protesto contra dragagem do Tapajós
Indígenas protestam contra dragagem do Tapajós em Santarém

Indígenas mantêm ocupação em Santarém contra dragagem do rio Tapajós

Chega ao sétimo dia o protesto de indígenas de 14 povos das regiões Baixo e Médio Tapajós, que bloqueia a entrada das instalações da multinacional do agronegócio Cargill, em Santarém, no Pará. Cerca de 150 pessoas seguem acampadas no local, reivindicando a suspensão imediata de um edital que prevê três anos de dragagem no rio Tapajós.

Conflito ambiental e direitos indígenas

Segundo os manifestantes, a dragagem do rio Tapajós afetaria áreas em Itaituba, além de Santarém e outras cidades da região. O protesto é contra um edital que, segundo os indígenas, ocorre sem licença ambiental e sem consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Lucas Tupinambá, presidente do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (CITA), afirma que a ocupação da Cargill "é resultado direto do Estado brasileiro e de grandes corporações que continuam a impulsionar projetos de infraestrutura na Amazônia sem atender às demandas expressas há muito tempo pelos povos que vivem na região".

"Não aceitaremos um modelo que priorize a exportação de commodities, ignorando os direitos indígenas e as leis ambientais. Queremos nosso rio vivo, não um corredor de exportação morto", declarou Tupinambá.

Problemas apontados no edital

Segundo levantamento feito por engenheiras e pesquisadoras do Grupo de Trabalho Infraestrutura (GT Infra), organização que integra a Aliança Chega de Soja, o edital apresenta uma série de problemas:

  • Ausência de licença ambiental
  • Ampliação dos trechos a serem dragados, incluindo áreas próximas a Itaituba
  • Presença de sítios arqueológicos considerados importantes
  • Orçamento duas vezes maior que o da dragagem realizada em 2025

Os manifestantes apontam que a dragagem pode atingir todo o leito do rio, que abrange principalmente cidades no oeste do Pará, como Santarém, Belterra, Aveiro, Itaituba, Trairão e Jacareacanga, afetando também a população ribeirinha e o bioma da região.

Posicionamento das partes envolvidas

A Cargill, multinacional do agronegócio sediada nos Estados Unidos, disse que "não há qualquer ocupação dentro de suas operações, mas sim a presença de um grupo de pessoas em frente à portaria de caminhões, o que impede a entrada e saída de veículos do terminal".

A empresa afirmou ainda que "respeita o direito à manifestação, assim como se mantém firme no cumprimento às leis brasileiras" e que "a pauta apresentada é um tema sobre o qual a empresa não tem ingerência".

O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) emitiu nota informando que "atua de forma integrada com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para manter as hidrovias brasileiras navegáveis".

Segundo o ministério, "no rio Tapajós, o que está em curso neste momento é um planejamento antecipado para possibilitar, quando necessário, a execução de dragagem de manutenção, evitando contratações emergenciais".

Carta pública e críticas ao decreto

Divulgada durante o ato, uma carta feita pelos povos indígenas do Baixo Tapajós mostra as reivindicações dos manifestantes. Eles afirmam que o "rio é um território vivo e sagrado, essencial para a alimentação, a cultura, a espiritualidade e a identidade dos povos originários".

No documento, o movimento critica o Decreto nº 12.600, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que autoriza a concessão de hidrovias à iniciativa privada, incluindo o Tapajós. Segundo a carta, o decreto "ignora a existência e os direitos dos povos tradicionais ao permitir que empresas passem a gerir, dragar e manter o rio, tratando-o como mercadoria".

"O Tapajós é parte do nosso corpo coletivo. Defender o rio é defender a vida", diz um trecho do documento.

A carta também relaciona a medida a um conjunto de políticas que, de acordo com o movimento, ameaçam os territórios indígenas, como o marco temporal, propostas de mudanças na Constituição, o enfraquecimento do licenciamento ambiental e conflitos fundiários na região.

O g1 procurou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), responsável pelo processo de licenciamento, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.