Sete anos de Brumadinho: Mãe que perdeu família critica impunidade e leis ambientais
Brumadinho: 7 anos depois, mãe denuncia impunidade e leis frágeis

Sete anos após tragédia em Brumadinho, mãe que perdeu família inteira denuncia impunidade e leis ambientais frágeis

Neste domingo, 25 de janeiro de 2026, completam-se sete anos do rompimento da Barragem I da Mina de Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. O desastre, ocorrido às 12h28 do dia 25 de janeiro de 2019, soterrou 272 pessoas sob uma avalanche de lama tóxica, marcando o maior acidente de trabalho já registrado no Brasil.

Entre as vítimas estava toda a família de Helena Taliberti. Seus dois filhos, Luiz e Camila Taliberti, o pai deles, a nora – que estava grávida do primeiro neto de Helena – e a esposa do ex-marido estavam hospedados em uma pousada próxima à barragem, aproveitando o feriado do aniversário de São Paulo, quando a tragédia aconteceu.

Luta por justiça e reparação verdadeira

Hoje, Helena Taliberti preside o Instituto Camila e Luiz Taliberti, organização fundada por amigos e familiares para manter viva a memória das vítimas e lutar por responsabilização da Vale e por uma reparação integral aos moradores de Brumadinho e familiares das vítimas.

"A justiça não foi feita", afirma Helena, em entrevista à Agência Pública. "Sete anos se passaram e a gente sente que não foi feito nada. O processo foi muito vagaroso. Falta ouvirem as comunidades, falta legislação efetiva, falta fiscalização das barragens."

Ela se refere ao Acordo Judicial de Reparação assinado em fevereiro de 2021 entre a Vale, o governo de Minas Gerais, o Ministério Público estadual e federal e a Defensoria Pública. Para Helena, no entanto, o acordo está longe de ser suficiente.

Impactos ambientais e sociais permanentes

Os danos causados pelo rompimento da barragem continuam visíveis e profundos. Estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostram que a vegetação natural de Brumadinho foi perdida, áreas produtivas desapareceram, a dinâmica dos rios foi alterada e os solos próximos ao rio Paraopeba foram contaminados.

"O rio Paraopeba está completamente contaminado", relata Helena. "Não tem pesca, não tem água, não tem lavouras em volta, não tem as comunidades que viviam daquilo. Tem bairros em Brumadinho que perderam as nascentes de água e não têm água para beber."

A dirigente do Instituto enfatiza que a tragédia não terminou em 2019. "A tragédia só começou no dia 25 de janeiro de 2019. A tragédia é todos os dias", desabafa, referindo-se ao impacto contínuo na vida dos sobreviventes e familiares.

Riscos de novos desastres e legislação ambiental

Helena Taliberti expressa preocupação com a possibilidade de novos desastres ambientais no Brasil, especialmente diante do afrouxamento das leis ambientais. Ela cita a Lei do Licenciamento Ambiental, que entrará em vigor em 2026, como um exemplo de retrocesso.

"Quando as leis ainda não eram frouxas como são agora, aconteceu Mariana, aconteceu Brumadinho", alerta. "Mariana foi a sirene de Brumadinho que ninguém quis ouvir. Imagine agora com a legislação frouxa. Como vai ser?"

Segundo ela, Minas Gerais e o Brasil ainda possuem barragens com nível de segurança no limite, prestes a romper, colocando em risco comunidades inteiras que vivem em seus arredores.

Objetivos do Instituto e importância da memória

O Instituto Camila e Luiz Taliberti tem como principais objetivos:

  • Conscientizar a sociedade sobre os impactos da mineração nas comunidades
  • Defender os direitos humanos, com foco no empoderamento de grupos vulneráveis, especialmente mulheres
  • Proteger o meio ambiente
  • Dar voz às vítimas e familiares fora de Minas Gerais, onde muitos desconhecem os riscos da mineração

O lema do Instituto – "tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes" – reflete a resistência e a esperança de que a tragédia não caia no esquecimento.

Ato pela Memória na Avenida Paulista

Para manter viva a memória das vítimas e denunciar a impunidade, acontece anualmente no dia 25 de janeiro o Ato pela Memória na Avenida Paulista, em São Paulo. Em 2026, a manifestação terá início às 10h, na esquina com a rua Augusta.

"Precisamos falar disso sempre porque não pode cair no esquecimento", afirma Helena. "O esquecimento e a impunidade são a porta para acontecer de novo. Lembrar disso é importante para que ninguém passe pelo que nós estamos passando."

Ela enfatiza que o ato serve para homenagear as 272 vidas perdidas, denunciar a impunidade e mostrar que a vida humana deve estar acima do lucro. "A vida precisa estar acima de qualquer coisa. Qualquer coisa! A vida precisa estar acima do lucro", conclui, com a voz embargada pela emoção de quem carrega diariamente a dor da perda.

Para Helena Taliberti e tantos outros familiares das vítimas, a luta por justiça completa e por uma reparação verdadeira continua, sete anos após uma das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil.