Chatbots e IA: dilemas históricos de 1966 ao ChatGPT se repetem
Recorrer a um chatbot como o ChatGPT, Gemini ou Claude em busca de terapia ou amizade pode parecer uma questão exclusiva do século 21. No entanto, essa controvérsia não é nova. Desde os anos 1950, a trajetória da inteligência artificial tem sido marcada por dilemas persistentes: o medo de que máquinas substituam humanos, a tendência de humanizar a tecnologia, o apego emocional que muitas pessoas desenvolvem por ela e as promessas ambiciosas que raramente se cumprem, mas continuam a atrair investimentos e atenção.
O cenário atual difere do passado principalmente na escala de recursos financeiros investidos. "Existe uma diferença de que hoje estamos em um contexto do capital financeiro e dos investimentos que essas empresas atraem, o espaço que elas conseguem junto a governos", afirma Bernardo Gonçalves, pesquisador de inteligência artificial, filósofo e tecnologista do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em entrevista à BBC News Brasil. "Mas as questões, eu diria que são as mesmas", completa.
O apego emocional às máquinas
Na década de 1960, o professor do MIT Joseph Weizenbaum criou o Eliza, considerado o primeiro chatbot a se tornar conhecido mundialmente. O programa rodava em um computador IBM 7094, uma máquina de grande porte que custava milhões de dólares, e simulava conversas usando regras pré-definidas para analisar e responder automaticamente. Em um teste, Weizenbaum programou Eliza para agir como uma terapeuta, reformulando frases dos "pacientes" em perguntas, criando a ilusão de diálogo.
Weizenbaum relatou que alguns pesquisadores da época já previam que máquinas poderiam oferecer terapia real no futuro, até mesmo em hospitais. O próprio criador se espantou com essa possibilidade, escrevendo: "Sem dúvida há técnicas para facilitar a projeção do terapeuta na vida do paciente. Mas que fosse possível a um psiquiatra defender que esse componente crucial do processo terapêutico pudesse ser substituído, isso eu não tinha imaginado".
O interesse por Eliza era tão intenso que, certa vez, sua secretária pediu que ele saísse da sala para ter uma conversa particular com o programa. Weizenbaum refletiu: "Por mais inteligentes que as máquinas possam vir a ser, há certos atos de pensamento que devem ser tentados apenas por seres humanos".
A tendência de tratar máquinas como pessoas
Em 1950, o cientista britânico Alan Turing propôs a pergunta pioneira: "As máquinas podem pensar?" Em seu artigo Computing Machinery and Intelligence, ele antecipou objeções teológicas e filosóficas, incluindo críticas sobre a consciência e a criação genuína. Turing usava termos como "cérebro eletrônico" e "memória" para descrever máquinas, o que gerou controvérsia entre seus contemporâneos.
Bernardo Gonçalves lembra que, em 1956, uma conferência na Dartmouth College definiu o campo da inteligência artificial como "máquinas que se comportam de tal forma que, se fosse um humano, seria dito que são inteligentes". Essa tradição de antropomorfizar persiste hoje, impulsionada por representações culturais e retórica empresarial.
A jornalista Karen Hao, autora do livro Império da AI, argumenta: "Desenvolvedores de IA falam com frequência sobre como seus softwares aprendem, leem ou criam, como os humanos. Isso não só alimentou a percepção de que as tecnologias atuais de IA são muito mais capazes do que realmente são, como também se tornou uma ferramenta retórica para que empresas evitem responsabilidade legal".
Máquinas para ajudar os humanos ou substituí-los?
Na década de 1940, Turing e o matemático Douglas Hartree debateram o futuro da computação. Enquanto Turing vislumbrava máquinas que poderiam aprender tarefas complexas, como jogar xadrez, Hartree advertia contra o uso exagerado de metáforas humanas. Em 1946, ele escreveu na revista Nature: "Parece-me que a distinção é importante e que o termo cérebro eletrônico a obscurece e é enganoso, pois atribui à máquina capacidades que ela não possui".
Hartree temia que essa confusão desviasse a atenção do verdadeiro propósito da computação: ampliar a capacidade de cálculo e auxiliar o raciocínio humano, não substituí-lo. Ele via no entusiasmo de Turing um risco moral e político, acreditando que superestimar as máquinas poderia abrir caminho para formas de autoritarismo.
'São tecnologias que deslocam poder'
Para Gonçalves, as disputas em torno da inteligência artificial estão ligadas ao poder e seu exercício na sociedade. "Por que temos controvérsia? Essa analogia com o humano, no fundo, é uma expansão do espaço da máquina na sociedade, que vai impactar no espaço do humano. Por exemplo, no que é um posto de trabalho", explica.
Ele destaca que, nos anos 1940 e 1950, o termo "computador" designava pessoas, especialmente mulheres, que realizavam cálculos complexos. Com o avanço da automação, essa profissão foi extinta, mostrando como essas tecnologias concentram poder e alteram estruturas de trabalho. "São tecnologias de automação que deslocam poder, fazem impacto na vida das pessoas, na economia", afirma.
O ciclo de promessas e frustrações com a IA
Nos anos 1970, o Reino Unido viveu um "inverno da IA" após um relatório cético sobre especulações sem fundamento. Gonçalves observa que hoje o ciclo se repete, impulsionado por empresas de tecnologia com orçamentos bilionários. "Faz-se todo um glamour, mas não se alcançam esses resultados. Promete-se ir muito longe", diz.
Apesar do ceticismo, ele destaca que o poder econômico e político sustenta inovações. "Desde 2022, quando surge o ChatGPT, esses sistemas vêm melhorando. E aí não estou falando do que se promete, mas do que de fato se observa". Gonçalves ressalta o potencial impacto: "É um tipo de pesquisa que, se bem-sucedida, tem impacto muito grande. Você poder automatizar mais e mais atividades intelectuais, de escritório, que foram as mais preservadas da automação das primeiras revoluções industriais".
Em resumo, os dilemas da inteligência artificial, desde Eliza até os chatbots modernos, revelam padrões históricos de apego emocional, antropomorfização e ciclos de promessas, destacando questões contínuas sobre poder, automação e o papel humano na era tecnológica.