Três décadas após tragédia, vítimas do Césio-137 enfrentam abandono e lutam por dignidade
Após o lançamento da minissérie Emergência Radioativa pela Netflix, que retrata o acidente com Césio-137 ocorrido há quase quarenta anos, as vítimas e seus familiares voltaram a expor suas dores e a realidade de abandono que persiste. Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves Ferreira, a menina de seis anos que se tornou símbolo da tragédia após ingerir material radioativo e morrer, desabafou sobre a falta de apoio médico e financeiro.
Revivendo a dor através da televisão
Em entrevista ao g1, Lourdes, hoje com 74 anos, confessou que a retratação da história de sua família na série mexe com sua saúde e a faz reviver tudo novamente. "Sempre mexe um pouco com a gente, com a nossa saúde, a gente revive tudo", lamentou. Na produção, sua personagem ganhou o nome de Catarina, enquanto Leide foi renomeada como Celeste.
Apesar da dor, Lourdes destacou a importância de manter o assunto em evidência: "É um assunto que a gente não pode calar, não pode deixar cair no esquecimento". Ela acredita que a repercussão tem ajudado a dar visibilidade à situação atual das vítimas, que precisam urgentemente de ajuda e amparo.
Dificuldades financeiras e de saúde
Atualmente, Lourdes depende exclusivamente de uma pensão do governo do estado e de um auxílio federal, totalizando R$ 954 mensais. No entanto, parte desse valor é comprometida com empréstimos, restando apenas cerca de R$ 400 a R$ 500 para despesas básicas. "Tenho que decidir se pago as despesas de casa ou se compro os remédios", desabafou.
A idosa enfrenta uma série de problemas de saúde, incluindo dores na coluna, pressão alta, colesterol elevado e complicações oftalmológicas, que a impedem de trabalhar. Além disso, ela corre o risco de perder a casa doada pelo governo devido ao IPTU atrasado por falta de recursos. "Eu só quero ter um final de vida digno", apelou.
Proposta de reajuste das pensões
Recentemente, o Governo de Goiás apresentou um projeto para atualizar os valores pagos aos beneficiários envolvidos na descontaminação, vigilância e atendimento às vítimas do acidente. Segundo a proposta:
- Para radiolesionados com contato direto ao Césio-137 ou exposição superior a 100 RAD, o benefício passará de R$ 1.908,00 para R$ 3.242,00.
- Para os demais beneficiários, o valor será corrigido de R$ 954,00 para R$ 1.621,00.
Embora seja um avanço, Lourdes e outras vítimas ainda aguardam a implementação efetiva dessas medidas.
Relembrando o acidente radiológico
O acidente com Césio-137 começou em 13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles levaram a peça para casa, onde removeram o lacre da cápsula contendo o pó radioativo, que emitia um brilho azul intenso.
Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que distribuiu fragmentos para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipularam o material, causando sintomas como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia. A suspeita surgiu com Maria Gabriela, esposa de Devair, que levou a cápsula à Vigilância Sanitária em 28 de setembro.
No dia seguinte, o físico Walter Mendes confirmou os altos níveis de radiação, iniciando o isolamento das áreas afetadas. Oficialmente, o acidente resultou em quatro mortes diretas devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):
- Leide das Neves Ferreira: 6 anos, faleceu em 23 de outubro de 1987, enterrada em caixão de chumbo.
- Maria Gabriela Ferreira: 37 anos, faleceu em 23 de outubro de 1987.
- Israel Batista dos Santos: 20 anos, faleceu em 27 de outubro de 1987.
- Admilson Alves de Souza: 18 anos, faleceu em 28 de outubro de 1987.
Outras vítimas sobreviveram, mas carregam sequelas, como Devair Alves Ferreira, que morreu sete anos depois, e Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, que faleceu 15 anos após o acidente.
Impacto duradouro e monitoramento contínuo
O acidente gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, armazenados em Abadia de Goiás. Na época, mais de 112.800 pessoas foram avaliadas, com 249 apresentando contaminação e 129 necessitando de acompanhamento médico permanente. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) monitora a saúde das vítimas e seus descendentes, mas muitas, como Lourdes, ainda lutam por condições básicas de vida.
A tragédia do Césio-137, considerada o maior acidente radiológico da história do Brasil, deixou um legado de sofrimento que persiste há décadas, com vítimas clamando por justiça e dignidade em seus últimos anos de vida.



