Psiquiatra alerta: lucro da indústria farmacêutica impede tratamentos para doenças mentais
Lucro impede tratamentos para doenças mentais, alerta psiquiatra

Psiquiatra faz alerta dramático sobre futuro dos tratamentos para doenças mentais

A neuropsicofarmacologista e psiquiatra Gabriella Gobbi, professora da Universidade McGill e presidente do Colégio Internacional de Neuropsicofarmacologia, emitiu um alerta dramático sobre o futuro dos tratamentos para doenças mentais. Em entrevista à Genomic Press, publicada na revista Brain Medicine, a especialista afirma que tratamentos promissores não estão chegando aos pacientes porque o capital de risco e a busca pelo lucro determinam quais compostos avançam nos ensaios clínicos.

Sistema ganancioso supervisiona a inovação

"Meu maior medo é em relação ao futuro da psicofarmacologia e da descoberta de medicamentos. Não porque a ciência esteja falhando, mas porque um sistema ganancioso supervisiona a inovação hoje", afirmou Gobbi. Ela descreve um cenário preocupante em que o financiamento público sustenta a pesquisa acadêmica inicial, mas as etapas mais dispendiosas – que incluem os testes em humanos – dependem de investimento privado, guiado por expectativas de margem de lucro em vez da necessidade médica.

"Podemos perder tratamentos bons e de baixo custo porque um sistema capitalista voraz controla qual medicamento será finalmente levado ao mercado", acrescentou a psiquiatra. Esta situação se assemelha ao problema das doenças negligenciadas, um grupo de doenças infecciosas que afetam principalmente populações mais pobres em áreas com saneamento básico precário e pouco acesso a serviços de saúde.

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Doenças negligenciadas e o desinteresse da indústria

As doenças negligenciadas recebem esse nome porque, apesar de causarem enorme impacto global, não atraem o interesse da indústria farmacêutica para desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas, já que o público-alvo tem baixo poder aquisitivo. Para piorar, muitas vezes são ignoradas pelas políticas de saúde, com a maioria ocorrendo em regiões de clima quente.

Pesquisa sobre Cannabis e depressão

Voltando à pesquisa de Gobbi, a observação clínica que impulsiona sua linha de investigação mais conhecida é de simplicidade surpreendente. No início dos anos 2000, ela acompanhava adolescentes e jovens adultos que fumavam Cannabis e que, nos anos seguintes, desenvolveram depressão marcada por anedonia profunda – incapacidade de sentir prazer em atividades antes consideradas agradáveis.

Em 2007, seu laboratório relatou um dos primeiros elos entre canabinoides, sistemas de serotonina e fenótipos associados à depressão. Em 2010, estudos em modelos animais demonstraram que exposição à Cannabis na adolescência poderia aumentar vulnerabilidade a quadros depressivos posteriores. Em 2019, evidências de apoio surgiram em coortes humanas.

Investigação sobre psicodélicos e desigualdade de gênero

Sua equipe também começou a investigar psicodélicos em 2013, antes que a onda contemporânea de ensaios clínicos trouxesse o assunto para a berlinda. Além disso, Gobbi fala com franqueza sobre desigualdade de gênero na ciência acadêmica, descrevendo tanto assédio ostensivo quanto erosão silenciosa: acesso desigual ao apoio administrativo das instituições, desvio para trabalhos de baixa visibilidade e cultura de convites para conferências que desfavorece pesquisadoras com fardos desproporcionais de cuidados familiares.

"Essa é a causa que mais me entusiasma: mudar a estrutura da nossa cultura científica para que a excelência seja reconhecida sem impor um imposto adicional e oculto às mulheres", ressaltou. Ao assumir a presidência do Collegium como primeira mulher a ocupar tal cargo na entidade, ouviu diversos relatos de pesquisadoras talentosas que foram isoladas, avaliadas de forma inconsistente ou nem sequer convidadas para mesas de discussões.

Pacientes recorrem à Justiça

Enquanto isso, pacientes continuam enfrentando dificuldades para acessar tratamentos, com muitos recorrendo à Justiça para obter remédios de alto custo que não estão disponíveis através do sistema de saúde convencional. Esta situação evidencia a urgência de reformas no sistema de pesquisa e desenvolvimento farmacêutico para garantir que inovações científicas realmente beneficiem quem mais precisa.

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