Febre de canetas emagrecedoras ilegais do Paraguai vira crise de saúde pública no Brasil
Canetas emagrecedoras ilegais do Paraguão ameaçam saúde no Brasil

Febre perigosa: contrabando de canetas emagrecedoras do Paraguai invade o Brasil

Uma investigação do Fantástico revelou a alarmante expansão do comércio ilegal de canetas emagrecedoras proibidas no Brasil, que cruzam a fronteira do Paraguai de forma clandestina e se espalham pelo território nacional. O fenômeno, que já se configura como um grave problema de saúde pública, envolve vendas sem receita médica, ausência de controle sanitário e táticas elaboradas para burlar a fiscalização.

Mercado ilegal movimenta milhões e desafia autoridades

As canetas emagrecedoras são negociadas abertamente nas ruas de Ciudad del Este, no Paraguai, e rapidamente distribuídas no Brasil através de uma rede organizada de contrabando. Os números são impressionantes: em 2023, a Receita Federal apreendeu 30 mil unidades, avaliadas em mais de R$ 30 milhões. No entanto, especialistas estimam que apenas 5% do total que entra ilegalmente no país é interceptado, indicando que esse mercado clandestino pode movimentar cerca de R$ 600 milhões.

Para escapar da fiscalização, os contrabandistas utilizam métodos criativos e arriscados:

  • Esconderijos no estofamento de carros e ônibus
  • Fundos falsos em veículos e embalagens
  • Ocultamento dentro de pneus
  • Vendas pela internet e em grupos de mensagens

Em Porto Alegre, durante uma operação de flagrante, um vendedor confessou adquirir de 40 a 60 caixas por vez, afirmando que não exigia receita médica para as transações.

Riscos graves à saúde: de internações a risco de morte

O uso desses medicamentos contrabandeados representa sérios perigos para a população. Kellen Oliveira, de 42 anos, experimentou na pele as consequências: após usar uma caneta emagrecedora vinda do Paraguai, desenvolveu fortes dores abdominais e precisou ser internada. O diagnóstico foi a síndrome de Guillain-Barré, uma doença rara e autoimune que provoca fraqueza muscular e pode levar à paralisia corporal. Atualmente, ela permanece internada na UTI.

Segundo Felipe Henning, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, os riscos são múltiplos: "Uma vez que ocorre um efeito colateral, não é possível saber com precisão se ele foi causado pelo medicamento, por outra substância, por um contaminante ou por má conservação". O especialista alerta que "esses efeitos colaterais podem ser tão severos que podem levar o paciente ao óbito".

Estrutura organizada e alertas das autoridades

No Paraguai, laboratórios investem pesado na promoção de produtos vetados no mercado brasileiro. Os contrabandistas desenvolveram uma estrutura sofisticada, incluindo grupos de mensagens que monitoram a fiscalização — o acesso a essas informações chega a custar R$ 100. A delegada Milena adverte: "Nesses casos, quando há falsificação ou corrupção do produto, a pessoa responde por crime contra a saúde pública, com pena de reclusão de 10 a 15 anos".

A Agência de Vigilância Sanitária do Paraguai emitiu um alerta específico sobre a tirzepatida, princípio ativo presente em muitas dessas canetas. O documento oficial afirma que a substância representa grave risco à saúde pública, pois não há garantias sobre sua composição, qualidade, segurança e eficácia.

Posicionamento oficial e caminhos para solução

A Anvisa reafirmou que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados. A única exceção permitida é a importação excepcional por pessoa física, exclusivamente para tratamento de saúde próprio e mediante prescrição médica válida.

Para Luciano, do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, o combate efetivo exige medidas coordenadas: "O combate passa pelo reforço nas áreas de fronteira, mas também pela homogeneização de protocolos entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil e a do Paraguai. Isso ajudaria muito".

Henning complementa: "De um lado, é preciso conscientizar a população. Do outro, reforçar a atuação dos órgãos públicos para coibir tanto o contrabando quanto o comércio ilegal".

Potencial terapêutico versus uso inadequado

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia reconhece que as canetas emagrecedoras representam um avanço significativo no tratamento da diabetes e da obesidade. No entanto, Henning ressalta: "São medicamentos muito bons. O grande problema está no uso inadequado, sem orientação médica, e na compra em fontes duvidosas, onde o produto pode não ser aquele, ter qualidade ruim ou estar contaminado".

Os medicamentos legítimos devem ser produzidos por laboratórios autorizados pela Anvisa e passam por rigorosos testes de qualidade e pureza antes de chegarem ao mercado. Daniel Link, auditor fiscal da Receita Federal, faz um alerta direto aos consumidores: "O brasileiro que compra essas canetas de forma irregular pode ter praticamente a certeza de que está adquirindo um suposto medicamento que chegou ao país sem a devida refrigeração e sem condições adequadas de uso. Ele pode não ter os efeitos esperados ou ainda causar danos à saúde".