O personal trainer paulistano Gilson Lima, de 40 anos, enfrenta um dos maiores desafios da carreira dentro de casa: fazer a filha Mariana, de 14 anos, trocar as redes sociais pela atividade física. Nem duas décadas de experiência ajudam. Mariana é sedentária e, para emagrecer, parou de comer, o que a levou ao pronto-socorro com pressão baixa e lábios arroxeados.
Uma pesquisa do Instituto Atlas/Intel com exclusividade para VEJA ouviu 600 brasileiros com filhos entre 11 e 17 anos. Mais da metade (53,4%) admite que os filhos fazem menos exercício do que deveriam. A inatividade inclui atividades básicas como andar a pé ou brincar. A OMS trata o sedentarismo infantojuvenil como pandemia, e no Brasil atinge 84% dos jovens, 4 pontos acima da média mundial.
Principais Causas do Sedentarismo
O estudo aponta três fatores principais: falta de espaços acessíveis (53,3%), questões emocionais como ansiedade (31,5%) e o vício em telas (31,1%). A dependência de smartphones, videogames e computadores é objeto de milhares de estudos. A OCDE alerta que o tempo excessivo em dispositivos afeta aprendizagem, concentração e bem-estar psicológico, além de reduzir atividades físicas e interações sociais.
Consequências para a Saúde
O sedentarismo compromete o desenvolvimento mental, emocional e físico. Crianças apresentam doenças típicas de idosos, como diabetes tipo 2 e hipertensão. A taxa de pressão alta em jovens dobrou entre 2000 e 2020, de 3% para 6%. A Federação Mundial da Obesidade prevê 228 milhões de jovens com sobrepeso até 2040. No Brasil, são 16 milhões com obesidade.
Histórias de Superação
O procurador Ricardo Cardoso da Silva e a esposa Noemi viveram situação semelhante com o filho Humberto. Aos 3 anos, ele não falava nem se relacionava, passando horas no tablet. O neuropediatra descartou autismo e recomendou esportes. A família mudou a rotina: skate, natação, basquete, judô e tênis. “Foi difícil competir com a tela, mas vencemos”, diz Ricardo.
O dentista Wilton Tagami enfrentou o vício em games do filho Kenzo, de 14 anos. O menino engordou e isolou-se. A virada veio com o tênis de mesa em uma associação esportiva. Hoje, Kenzo treina seis vezes por semana, pratica natação e vôlei, perdeu 6 quilos e tornou-se mais comunicativo.
A dona de casa Suzana descobriu colesterol e triglicerídios altos nos filhos gêmeos de 11 anos. Mudou a alimentação e inscreveu-os em esportes até se identificarem: a menina escolheu ginástica rítmica e o menino, judô. Apesar disso, ainda pegam táxi para ir à escola, a 300 metros de casa, por segurança.
Papel das Escolas
Colégios como o Bandeirantes e o Magno, em São Paulo, ampliam atividades físicas. O Magno oferece vôlei, basquete, futsal, jazz e natação sem custo extra, além de academia de musculação. Alunos podem substituir aulas de educação física por atividades extracurriculares. “Isso aumenta o interesse e cria vínculo com o esporte”, afirma a diretora Cláudia Tricate.
Benefícios Comprovados
Revisão australiana com 80 mil participantes indica que exercícios são tão eficazes quanto medicamentos e psicoterapia para depressão e ansiedade. A atividade física altera a química cerebral e amplia a interação social, elevando o bem-estar.
Em 2025, o Congresso Nacional restringiu o uso de celulares nas escolas e tornou a Lei de Incentivo ao Esporte permanente. Mas especialistas consideram as medidas insuficientes. Fazer a geração sedentária se movimentar é prioridade inegociável.



