Mosquito da malária desenvolve resistência a inseticidas na América do Sul, alerta estudo
Mosquito da malária resiste a inseticidas na América do Sul

Mosquito transmissor da malária desenvolve resistência a inseticidas na América do Sul

Mosquitos da espécie Anopheles darlingi, principal vetor da malária na América do Sul, estão desenvolvendo resistência genética a inseticidas em diversos países do continente. A descoberta alarmante foi publicada nesta quinta-feira (26) na prestigiada revista "Science", com participação de pesquisadores brasileiros e internacionais.

Estudo inédito sequencia genoma de mais de mil mosquitos

Esta é a primeira vez que pesquisadores sequenciam o genoma completo de mais de mil mosquitos Anopheles nas Américas. A amostra incluiu 1.094 fêmeas adultas coletadas em 16 localidades da Guiana Francesa, Brasil, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia. Os insetos foram capturados em ambientes diversos como:

  • Florestas e áreas úmidas
  • Campos e zonas agrícolas
  • Áreas de mineração
  • Cidades e áreas urbanas

O resultado mais surpreendente foi justamente a resistência a inseticidas, fenômeno que até então havia sido observado de forma esparsa nessa espécie.

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Agrotóxicos podem ser o motor da resistência

Segundo os pesquisadores, a hipótese mais plausível para essa resistência é que a pressão sobre os mosquitos não venha dos inseticidas usados diretamente no combate à malária, mas sim dos produtos químicos utilizados na agropecuária.

Para entender esse processo, é preciso lembrar que as larvas do Anopheles darlingi se desenvolvem na água. Em regiões agrícolas, essa água pode estar contaminada por inseticidas que escorrem dos campos cultivados ou se acumulam em valas de irrigação.

"Em muitos desses locais, o uso de inseticidas na agricultura é muito mais comum do que o uso direto para matar mosquitos", explica Jacob Tennessen, cientista do Departamento de Imunologia e Doenças Infecciosas de Harvard e um dos autores do estudo.

Risco para o controle da malária no Brasil

A América do Sul registra mais de 600 mil casos de malária por ano. O Brasil responde por cerca de 162 mil desses casos e tem como meta oficial eliminar a doença. Esse objetivo pode se tornar consideravelmente mais difícil se a resistência a inseticidas se consolidar.

Os dois principais métodos de controle do mosquito hoje dependem diretamente da eficácia desses produtos:

  1. Mosquiteiros impregnados com inseticida
  2. Borrifação residual intradomiciliar nas paredes das casas

Se os mosquitos aprenderem, geneticamente falando, a tolerar esses produtos, as ferramentas mais acessíveis de proteção perdem o efeito.

Lições da experiência africana

Os pesquisadores alertam que a história africana pode servir de referência para o que pode acontecer na América do Sul. Os piretróides, principal classe de inseticidas usada no combate à malária, eram altamente eficazes nos anos 1990 e hoje são quase inúteis na dose original em grande parte do continente africano.

"O controle da malária precisa ser mais bem integrado com a agenda de vigilância de agrotóxicos e de uso do solo", explica a professora da USP Maria Anice Mureb Sallum, que atua na área de taxonomia e ecologia de mosquitos vetores há mais de 45 anos e também foi autora do estudo.

Diversidade genética entre países

Além da resistência, o estudo revelou outro dado relevante: os Anopheles darlingi de diferentes partes do continente são geneticamente muito distintos entre si. Os mosquitos da Guiana, por exemplo, têm pouco em comum geneticamente com os da Venezuela, apesar de pertencerem à mesma espécie.

Essa fragmentação tem duas implicações práticas para o controle da malária:

  • Uma resistência que surge no Peru não se espalha automaticamente para a Guiana
  • Estratégias avançadas de controle genético precisariam ser coordenadas simultaneamente em vários países

Próximos passos da pesquisa

Daniel Neafsey, professor associado de imunologia e doenças infecciosas de Harvard e autor sênior do estudo, ressalta que os resultados ainda não justificam mudanças imediatas de políticas públicas: "Uma pesquisa adicional é necessária".

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O próximo passo, segundo os pesquisadores, é medir concretamente o grau de resistência dos mosquitos identificados: a quais inseticidas respondem menos, e em que proporção. "Assim será possível monitorar a disseminação da resistência e potencialmente sugerir como o uso de inseticidas nesses países deve ser alterado", completa Tennessen.

O que é a malária

A malária é uma das doenças infecciosas mais antigas da humanidade e ainda uma das mais letais. No Brasil, as espécies mais comuns são o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum, este último responsável pelas formas mais graves e pela maior parte das mortes.

A transmissão ocorre exclusivamente pela picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada, conhecido no Brasil como carapanã, muriçoca, sovela ou mosquito-prego. Quando não tratada a tempo, a malária pode evoluir rapidamente para formas severas, especialmente em crianças pequenas, gestantes e pessoas sem contato anterior com o parasito.