Malafaia x Damares: briga evangélica aprofunda racha na direita bolsonarista
Briga Malafaia e Damares aprofunda racha na direita

Uma disputa pública entre duas das figuras evangélicas mais proeminentes da política brasileira está expondo e aprofundando as fissuras dentro da direita bolsonarista. O conflito teve início após declarações da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) sobre suposto envolvimento de líderes religiosos em esquemas de corrupção.

Acentuando as divisões na base aliada

A crise começou a ganhar corpo quando Damares Alves, em uma entrevista, afirmou que pastores de grandes igrejas estavam envolvidos no esquema de fraudes no INSS. Ela também alegou que religiosos estariam atuando como lobistas no Congresso Nacional, tentando barrar o avanço das investigações sobre o caso.

As acusações, feitas de forma genérica e sem a apresentação imediata de nomes, provocaram uma reação imediata e furiosa do pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus e uma voz influente no meio evangélico e político.

Ataques públicos e exigência de provas

Na noite de quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, Malafaia publicou um vídeo nas redes sociais dirigindo-se diretamente à senadora. Em tom desafiador, ele exigiu que Damares apresentasse as provas e nomes dos acusados. “Uma acusação gravíssima dessa e a senhora não dá os nomes? Ou senhora dá os nomes ou a senhora é uma leviana linguaruda”, disparou o pastor.

Malafaia foi além, questionando a conduta e a postura da parlamentar, afirmando que, sem provas, ela não seria “digna nem de ser evangélica”. Ele também aproveitou para criticar posições anteriores de Damares, citando, por exemplo, seu suposto apoio a cotas para pessoas transgêneros, que, segundo ele, contrariam os princípios da comunidade evangélica.

Resposta da senadora e novos nomes na mesa

Em resposta aos ataques, Damares Alves divulgou uma nota oficial. Nela, reiterou que a participação de igrejas ou líderes em fraudes causa “profundo desconforto e tristeza”. Ela argumentou que os nomes já eram de conhecimento público, pois constavam em requerimentos apresentados pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga o caso.

Acompanhando a nota, a senadora listou alguns nomes. Entre eles estavam os pastores André Valadão e Fabiano Zettel. Este último é cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ficou conhecido por ser o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022.

Contra-ataque e acusação de contradição

Insatisfeito com a justificativa, Silas Malafaia voltou a atacar. Primeiro, em uma publicação na quarta-feira, e novamente na tarde de quinta-feira, 15 de janeiro. Ele alegou que a senadora havia se contradito, pois em sua nota citou apenas um “grande líder” e nenhuma “grande igreja”, diferente da acusação inicial feita no plural.

“A sua acusação foi leviana e denigre de maneira geral a igreja evangélica”, escreveu Malafaia. Em um novo vídeo, ele se propôs a “desmascarar” Damares, acusando-a de tentar tirar proveito político da situação e a desafiando a revelar quem teria feito lobby para que ela se calasse.

O pano de fundo: um movimento bolsonarista fragmentado

Esta polêmica específica não é um caso isolado. Ela se soma a uma série de outros conflitos que têm fragmentado a direita bolsonarista desde meados de 2025. A cena política desse segmento tem sido marcada por:

  • Desentendimentos entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente sobre alianças políticas no estado do Ceará.
  • Divergências e apoios divididos entre as pré-candidaturas presidenciais do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
  • Críticas de setores da direita ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), devido à sua articulação por sanções dos Estados Unidos contra o Brasil.

A briga entre Malafaia e Damares, portanto, escancara mais uma frente de tensão dentro de uma base que luta para se reorganizar, evidenciando que as divisões vão muito além de questões meramente partidárias, atingindo também as alianças com importantes setores da sociedade civil, como as lideranças evangélicas.