O cenário político do Ceará se intensifica com a indefinição de Ciro Gomes sobre concorrer ao governo estadual ou à Presidência da República, enquanto Camilo Santana, ex-ministro de Lula, assume posição estratégica. O embate entre os ex-aliados, hoje distantes, pode reconfigurar alianças locais, impactar o PT e a direita bolsonarista, com reflexos na corrida presidencial.
Trajetórias que se cruzaram e se separaram
Camilo Santana iniciou sua carreira política no Ceará com duas tentativas frustradas de ser prefeito de Barbalha, em 2000 e 2004. O sucesso veio em 2006, quando apoiou a vitoriosa campanha de Cid Gomes ao governo e tornou-se seu secretário em duas pastas. Essa aliança rendeu quatro mandatos — dois para Cid e dois para Camilo — que também se aproximou de Ciro Gomes, irmão de Cid e figura central da política cearense.
Atualmente, Camilo e Ciro, os dois maiores caciques do estado, estão em lados opostos. O petista foi apontado por Ciro como responsável pelo racha em sua família, que desde 2022 colocou ele e três irmãos em campos opostos, quando o PT rompeu a aliança para eleger Elmano de Freitas. Agora, ambos voltam a se enfrentar como curingas de seus consórcios políticos, com escolhas que podem redesenhar alianças e embaralhar a eleição no Ceará e até na disputa presidencial.
A ambiguidade de Ciro Gomes
O principal elemento de incerteza é a ambiguidade que Ciro estimula. Questionado sobre sua candidatura ao governo, não confirma nem nega, mesmo articulando encontros com lideranças estaduais, bancada federal e prefeitos do interior. Após o presidente do PSDB, Aécio Neves, sugerir seu nome para a Presidência, Ciro também não descartou a ideia, dizendo que iria amadurecê-la.
Essa indefinição mantém em suspense a movimentação petista. Se decidir disputar o Palácio da Abolição, Ciro sai com vantagem, pois as pesquisas o apontam como favorito, colocando em risco a reeleição de Elmano de Freitas e atraindo a sombra de Camilo, mais competitivo. Nos bastidores, alguns descartam a substituição de Elmano por Camilo. Já a saída de Ciro da disputa estadual é considerada remota. Um aliado da direita, sob anonimato, afirma que o tucano deve priorizar a briga local, já com marqueteiros e assessores montados. “Ele não vai trocar o certo pelo duvidoso”, diz.
O cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, avalia que articulações políticas são difíceis de desfazer. “A saída de Ciro não está em jogo, porque ele já foi longe demais. Parece algo bastante irreversível”, analisa.
A posição única de Camilo Santana
Camilo Santana é o único ministro de Lula que deixou o cargo sem ter um cargo eleitoral à vista. Dizendo que ajudará a campanha de Elmano, abriu mão do comando de uma das pastas com maior orçamento e mais bem avaliada — 36% consideram o trabalho ótimo ou bom, segundo pesquisa Ipsos-Ipec de março. Seu bom desempenho e o fato de estar livre politicamente (ainda tem mais de quatro anos de mandato como senador) alimentam incertezas sobre seu futuro. Em uma semana, acompanhou Lula em cinco eventos em três estados, o que reforçou rumores de que poderia ser o “plano B” do PT caso Lula desista, hipótese ainda considerada improvável.
Um duelo direto com Ciro pelo governo do Ceará é remoto por ser arriscado. Uma derrota de Camilo não pode ser descartada, pois ambos estão empatados na margem de erro, segundo pesquisa AtlasIntel. “Perder o projeto estadual significaria um enfraquecimento da construção dessa liderança nacional”, avalia Teixeira. Além disso, sua entrada no lugar de Elmano poderia criar fissuras na ampla aliança do PT, composta por PSB, PDT, MDB e Republicanos. O senador Cid Gomes, favorito à reeleição, já sinalizou que não apoiaria Camilo: “Não tenho dúvida que Elmano será o candidato e o meu compromisso é com Elmano”, diz. Sobre o irmão, afirma: “Rezo a Deus para que Ciro seja candidato à Presidência, porque terei um candidato melhor para votar no cenário nacional e não terei o constrangimento de não votar em meu irmão para o governo do estado”.
Em nota, Camilo negou que vá disputar o governo. “Nós trabalhamos pela reeleição de Elmano de Freitas, que tem feito uma gestão competente. A campanha será oportunidade de colocarmos frente a frente projetos distintos, um que tem olhado pelas pessoas e outro que nada fez pelos cearenses”, diz.
Impactos na direita e no cenário nacional
Se a entrada de Camilo pode provocar um racha na esquerda, as possibilidades de Ciro impactam a direita bolsonarista. O PL tenta firmar aliança estadual com o tucano, apesar da resistência de Michelle Bolsonaro, que apoia a candidatura do senador Eduardo Girão (Novo). O deputado André Fernandes articula a candidatura de seu pai, Alcides, ao Senado na chapa de Ciro — até cartazes já foram divulgados. O PL também se esforça para evitar que Ciro dispute a Presidência, pois ele poderia roubar votos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Uma candidatura de Camilo ao governo aprofundaria o cisma entre os irmãos Ferreira Gomes. Cid continua no grupo de Camilo, Lia é secretária das Mulheres no governo Elmano, e Ivo, ex-prefeito de Sobral, rompeu com o governador, mas foi nomeado assessor no BNDES em abril.
Camilo só entraria na disputa se Ciro se mostrasse muito favorito e ameaçasse a reeleição de Elmano. Uma candidatura presidencial teria dificuldades no cenário polarizado. “Ele sabe que não tem apoio político para uma campanha nacionalizada. O PSDB se enfraqueceu, e o bolsonarismo tem muito peso. Uma candidatura nacional de Ciro dependeria de um desgaste grande do bolsonarismo, mas isso não está posto”, diz Teixeira. Até Aécio Neves reconhece que a chance de vitória é baixa, mas “o simples fato de o nome dele ser cogitado já ajuda, estimula outras candidaturas nossas aos governos, ao Congresso”.
Uma quinta candidatura presidencial de Ciro cheira a tentativa de ressurreição de duas biografias: a dele e a do PSDB. “Temos um projeto de voltar para a primeira prateleira da política nacional. Quando o PSDB deixa de ser protagonista, o Brasil perde muito”, completa Aécio.
O que está em jogo
O Ceará é o terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste, atrás da Bahia, e o oitavo do país. É reduto estratégico para o PT, que obteve cerca de 70% dos votos para Lula em 2022, elegeu Elmano em primeiro turno e garantiu votação expressiva para Camilo ao Senado. Tem também a única capital governada por um petista (Evandro Leitão). A batalha no Ceará, mesmo com Ciro na disputa estadual, não deixará de ter apelo nacional.



