Vaticano recusa integrar Conselho de Paz de Trump e reafirma protagonismo da ONU
A Santa Sé comunicou oficialmente que não fará parte do chamado Conselho de Paz, iniciativa internacional do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltada para a gestão de crises e negociações diplomáticas globais. A posição foi apresentada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, durante encontro bilateral com o governo italiano realizado em Roma.
Natureza peculiar da Santa Sé justifica decisão
Segundo Parolin, a decisão decorre da "natureza peculiar" da Santa Sé, que não se equipara a outros Estados nacionais convencionais. "Há aspectos que suscitam dúvidas e pontos que precisariam de esclarecimento", afirmou o cardeal a jornalistas, ao comentar a adesão da Itália ao mecanismo na condição de observadora. O encontro ocorreu no Palazzo Borromeo, sede da embaixada italiana junto à Santa Sé, por ocasião do aniversário dos Pactos de Latrão, acordo histórico de 1929 que estabeleceu a soberania do Vaticano. Também participou da cerimônia o presidente da Itália, Sergio Mattarella.
Defesa do papel central das Nações Unidas
Embora tenha reconhecido a tentativa de criar instrumentos para responder a conflitos internacionais, Parolin destacou que, na visão do Vaticano, a coordenação de crises deve permanecer sob responsabilidade prioritária da Organização das Nações Unidas. "Uma preocupação é que, no âmbito internacional, seja sobretudo a ONU a gerir essas situações", declarou o secretário de Estado. A posição reforça a tradição diplomática da Santa Sé, que historicamente privilegia fóruns multilaterais consolidados e atua como mediadora discreta em disputas internacionais, evitando integrar estruturas político-militares ou conselhos com desenho institucional ainda em definição.
Especialistas em relações internacionais ouvidos por jornais italianos como Corriere della Sera e La Repubblica avaliam que o Vaticano busca preservar sua imagem de ator neutro e facilitador de diálogos, sem se vincular formalmente a instâncias que possam ser percebidas como alinhadas a interesses específicos de governos particulares.
Ceticismo em relação à guerra na Ucrânia
Questionado sobre o cenário internacional atual, Parolin demonstrou desalento em relação à guerra na Ucrânia, que se aproxima do quarto ano desde a invasão russa em larga escala. Nos últimos dias, ataques intensos atingiram infraestruturas energéticas em Kiev e outras cidades importantes, agravando significativamente a situação humanitária. "O clima é de muito pessimismo", afirmou o cardeal. Segundo ele, não há sinais claros de avanço concreto nas tratativas de paz. "Espera-se que as negociações tragam algum resultado, mas não parece haver grandes expectativas."
Desde o início do conflito, o Vaticano tem defendido consistentemente:
- Cessar-fogo imediato
- Negociações diretas entre as partes
- Soluções diplomáticas pacíficas
- Apoio humanitário por meio de redes católicas e organismos de caridade
O papa Leão XIV tem reiterado apelos frequentes pelo fim das hostilidades e pela proteção de civis inocentes.
Relações com a Itália e agenda social prioritária
Durante o encontro no Palazzo Borromeo, Parolin também ressaltou o bom relacionamento com o governo italiano e agradeceu a atenção dedicada a temas considerados prioritários pela Igreja Católica. Entre eles destacam-se:
- Políticas de apoio à família
- Educação de qualidade
- Inclusão de pessoas com deficiência
- Melhorias no sistema prisional
De acordo com o secretário de Estado, grupos de trabalho conjuntos entre autoridades italianas e representantes ligados à Conferência Episcopal Italiana vêm registrando avanços significativos nessas áreas sociais importantes.
Estratégia diplomática tradicional reafirmada
A recusa em integrar o Conselho de Paz, portanto, não indica distanciamento diplomático, mas reafirma a estratégia tradicional da Santa Sé: atuar como voz moral e mediadora em crises globais, preservando autonomia institucional e defendendo o multilateralismo ancorado na ONU como principal arena de resolução de conflitos internacionais. Esta posição mantém o Vaticano como um ator único no cenário global, capaz de exercer influência moral sem se comprometer com estruturas políticas específicas.



