Trump celebra 'virada histórica' dos EUA em pronunciamento recorde no Congresso
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou seu discurso sobre o Estado da União nesta terça-feira (24) para reivindicar uma "virada histórica" do país, em um pronunciamento que durou 1 hora e 47 minutos - o mais longo da história deste tradicional evento anual. O mandatário republicano de 79 anos, em seu segundo e último mandato, fez a declaração perante o Congresso em Washington, mesclando conquistas econômicas questionáveis com êxitos militares e de segurança.
Discurso marcado por tensões políticas e protestos
O ambiente no Capitólio foi de intensa polarização. Dezenas de congressistas democratas boicotaram o evento em protesto às políticas anti-imigração de Trump, enquanto os que compareceram enfrentaram provocações diretas do presidente. "Os democratas estão destruindo o nosso país, mas os paramos a tempo", afirmou Trump, gerando vaias e protestos da oposição.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, classificou o discurso como "delirante" e desconectado da realidade dos cidadãos comuns. "Os americanos nunca viram um discurso sobre o Estado da União tão desconectado da realidade. A retórica do presidente e a realidade do país são dois mundos à parte", criticou Schumer.
Foco na América Latina e segurança hemisférica
Trump dedicou parte significativa de seu pronunciamento às ações dos EUA na região, afirmando: "Estamos restaurando a segurança e a dominação dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental". O presidente destacou:
- A operação que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro
- O papel decisivo da inteligência americana na localização e morte de Nemesio Oseguera ("El Mencho"), chefe do Cartel Jalisco Nova Geração
- A compra de "mais de 80 milhões de barris" de petróleo venezuelano pelos EUA
Em um momento emocionante, Trump apresentou Enrique Márquez, ex-candidato presidencial venezuelano que havia sido libertado de prisão em Caracas graças à pressão de Washington, reunindo-o com uma sobrinha no plenário.
Cenas de patriotismo e controvérsias
O discurso alternou entre momentos patrióticos e conflitos políticos:
- Apresentação da equipe de hóquei sobre o gelo masculina que conquistou o ouro olímpico em Milão, primeira vitória desde 1980
- Homenagem ao soldado Andrew Wolf, baleado na cabeça por um refugiado afegão em Washington
- Críticas aos juízes da Suprema Corte que derrubaram sua política tarifária, chamando a sentença de "muito infeliz"
A tensão atingiu o ápice quando a representante democrata Ilhan Omar gritou "Você matou americanos!", referindo-se à morte de dois ativistas durante operações contra imigrantes irregulares em Minneapolis - considerado o episódio mais grave do segundo mandato de Trump.
Protesto racial e expulsão de congressista
Em uma cena dramática, o veterano congressista democrata Al Green, do Texas, foi expulso do recinto após exibir um cartaz que dizia "negros não são macacos". O protesto fazia referência a um vídeo racista publicado e depois removido do perfil de Trump na Truth Social, que representava Barack e Michelle Obama como macacos.
Green permaneceu firme segurando o cartaz mesmo quando Trump iniciou seu discurso, sendo retirado em meio a cânticos de "USA! USA! USA!" da plateia. No ano anterior, o mesmo parlamentar já havia sido escoltado para fora após brandir sua bengala contra o presidente durante discurso no Congresso.
Realidade econômica contrasta com retórica presidencial
Apesar da retórica triunfalista, os indicadores econômicos apresentam um cenário mais complexo:
- Crescimento econômico de 2,2% em 2025, inferior ao ano anterior
- Inflação permanece em 2,9% em dezembro (comparação anual)
- Apenas o mercado de emprego mostra desempenho positivo
Trump havia prometido há um ano o início de uma "era de ouro" para os EUA, mas essa promessa permanece não cumprida diante da inflação persistente, divisão política e crescente influência da China.
Desafios políticos no horizonte
O Congresso retoma suas sessões esta semana sem resolver o impasse sobre o financiamento do Departamento de Segurança Interna, com as agências de imigração no centro das negociações entre republicanos e democratas. As pesquisas de opinião mostram resultados mistos para Trump, com menos de 50% de aprovação, mas base de apoiadores firme.
As eleições de meio de mandato em novembro deste ano, que renovarão parcialmente o Congresso, podem definir um final de governo difícil para Trump caso resultem em vitória democrata. O presidente, no entanto, não apresentou uma agenda clara para a segunda metade de seu mandato, limitando-se a advertências a inimigos como o Irã sem propostas concretas de política externa ou doméstica.



