Rússia recomenda terapia para mulheres que não querem filhos em meio a crise demográfica
O governo da Rússia implementou uma nova diretriz que recomenda o encaminhamento de mulheres que não desejam ser mães para acompanhamento psicológico, numa tentativa de reverter a grave crise demográfica que assola o país. A medida, divulgada pela imprensa local nesta quinta-feira, 19 de março de 2026, integra uma política do Ministério da Saúde que busca estimular a natalidade promovendo uma visão "mais positiva" sobre a maternidade.
Detalhes da nova diretriz governamental
A orientação oficial determina que médicos encaminhem cidadãs entre 18 e 49 anos para consultas com psicólogos quando estas manifestarem falta de interesse na maternidade. Para os homens, recomendações semelhantes foram estabelecidas, porém restritas ao bem-estar físico, sem previsão de acompanhamento por saúde mental. Além disso, mulheres nessa faixa etária devem ser convidadas a realizar exames periódicos para avaliação da saúde reprodutiva.
O documento foi aprovado no final de fevereiro, mas só veio a público esta semana após divulgação pela mídia russa. A iniciativa reflete a preocupação do presidente Vladimir Putin com o encolhimento populacional, tratado pelo Kremlin como questão estratégica ligada à segurança nacional e ao futuro do país.
Cenário demográfico alarmante na Rússia
A taxa de natalidade russa está entre as mais baixas da história recente, em torno de 1,4 filho por mulher — bem abaixo do nível de reposição populacional, estimado em 2,1. Especialistas apontam que o cenário é agravado por múltiplos fatores:
- Condições econômicas desfavoráveis
- Questões sociais complexas
- Impacto de conflitos recentes, como a guerra na Ucrânia
- Redução da população em idade fértil
Nos últimos anos, o governo russo vem adotando uma política mais ampla de incentivo à natalidade que inclui:
- Endurecimento das regras relacionadas ao aborto
- Oferecimento de benefícios financeiros e sociais para famílias numerosas
- Promoção de campanhas públicas que exaltam a maternidade
Críticas à medida como interferência reprodutiva
A nova recomendação tem gerado controvérsia significativa entre analistas e ativistas. Críticos avaliam que a medida representa uma tentativa de interferência direta nas decisões reprodutivas das mulheres, ao tratar a escolha consciente de não ter filhos como algo que necessita de correção através de orientação psicológica.
Esta abordagem é vista como problemática por transformar uma preferência pessoal legítima em questão de saúde mental que requer intervenção profissional. A medida levanta questões sobre autonomia corporal e liberdade reprodutiva em um contexto onde o Estado busca influenciar ativamente as escolhas familiares dos cidadãos.
A demografia tornou-se uma das principais preocupações da administração Putin, que há anos alerta para os riscos do declínio populacional. A nova diretriz representa mais um capítulo na complexa relação entre políticas governamentais e direitos individuais na Rússia contemporânea, onde questões reprodutivas são cada vez mais enquadradas no contexto de prioridades nacionais estratégicas.



