EUA e Irã retomam negociações nucleares em Genebra sob clima de tensão militar
Estados Unidos e Irã iniciaram nesta terça-feira a segunda rodada de negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano, em Genebra, em um contexto marcado por uma combinação explosiva de diplomacia, demonstrações militares e retórica agressiva de ambas as partes. O encontro ocorre poucos dias depois de novos exercícios das Forças Armadas iranianas no estratégico Estreito de Hormuz e de um significativo reforço da presença naval americana na região do Golfo Pérsico.
Formato das negociações e participantes
As conversas são mediadas por Omã, seguindo o mesmo formato adotado na primeira rodada realizada no início do mês em Mascate. De um lado, participa o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, representando os interesses de Teerã. Do outro, está o enviado especial americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, acompanhado de Jared Kushner, genro do ex-presidente Donald Trump. As delegações trocam mensagens por meio do ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad al-Busaidi, em um processo cuidadosamente orquestrado de diplomacia indireta.
Pressão militar e demonstrações de força
Poucas horas antes do início das reuniões em Genebra, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou exercícios navais no Estreito de Hormuz, rota estratégica por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo comercializado mundialmente. Partes dessa via marítima chegaram a ser fechadas temporariamente por "razões de segurança", segundo informações da agência de notícias Fars. Analistas internacionais interpretaram essa movimentação como um claro sinal de que Teerã pretende negociar sob demonstração de força militar.
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, elevou ainda mais o tom ao afirmar que os Estados Unidos "não serão capazes de destruir a República Islâmica", respondendo diretamente a declarações recentes de Donald Trump. Para Khamenei, a pressão externa apenas reforça a resistência interna e não alterará a posição estratégica do país no cenário internacional.
Posicionamento americano e exigências
Do lado americano, Donald Trump voltou a afirmar que espera um acordo viável, mas manteve a ameaça de consequências severas caso não haja entendimento satisfatório entre as partes. Em declarações recentes, o ex-presidente americano afirmou que um pacto é possível, desde que o Irã aceite limites verificáveis e permanentes ao seu programa nuclear, com mecanismos de inspeção robustos e transparentes.
O que está em jogo nas negociações
O impasse central gira em torno da retomada de compromissos semelhantes aos do acordo de 2015, firmado entre o Irã e as potências do chamado P5+1. Aquele pacto histórico limitava significativamente o enriquecimento de urânio em troca do alívio progressivo de sanções econômicas internacionais. O acordo foi abandonado unilateralmente pelos EUA em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, e, desde então, Teerã ampliou consideravelmente o nível de enriquecimento de urânio e restringiu as inspeções internacionais em suas instalações nucleares.
Segundo autoridades iranianas ouvidas pela agência Reuters, o sucesso da rodada em Genebra depende fundamentalmente de dois fatores centrais:
- Que Washington apresente propostas realistas e concretas
- Que haja garantias tangíveis de suspensão imediata de sanções econômicas
Teerã afirma estar disposto a reduzir significativamente o nível de enriquecimento do urânio, possivelmente abaixo dos limites acordados em 2015, além de permitir o acesso ampliado da Agência Internacional de Energia Atômica às suas instalações nucleares. Em contrapartida, o governo iraniano exige a liberação de ativos bloqueados no exterior e a suspensão efetiva de todas as restrições financeiras e comerciais que impactam sua economia.
Contexto doméstico e regional delicado
As conversas ocorrem em um contexto doméstico particularmente delicado para o regime iraniano. O país realiza cerimônias pelos 40 dias da morte de milhares de pessoas durante protestos ocorridos em janeiro, segundo dados oficiais divulgados pelas autoridades. Teerã atribui os distúrbios a uma suposta articulação externa envolvendo Estados Unidos e Israel, narrativa que reforça a desconfiança política no diálogo com Washington.
No plano regional, a tensão permanece elevada com conflitos envolvendo aliados do Irã, como os houthis no Iêmen, e a instabilidade persistente em várias partes do Oriente Médio, o que amplia consideravelmente o risco de escalada militar. Analistas ouvidos por veículos como Financial Times e Reuters avaliam que o reforço militar americano funciona como instrumento de pressão diplomática, mas também aumenta perigosamente o risco de erro de cálculo que poderia levar a confrontos diretos.
Expectativas moderadas e desafios
A primeira rodada de negociações, realizada em 6 de fevereiro em Mascate, terminou sem avanços concretos significativos. Ambas as partes classificaram o encontro como positivo em termos de atmosfera, mas não apresentaram cronograma ou esboço mínimo de entendimento. Diplomatas ouvidos pela imprensa internacional afirmam que um acordo duradouro exigirá concessões graduais de ambos os lados e mecanismos de verificação extremamente rigorosos.
A principal dificuldade identificada por especialistas é reconstruir a confiança bilateral após a ruptura traumática do pacto anterior. Apesar das ameaças mútuas e da retórica dura que marca o discurso público, há sinais discretos de pragmatismo dos dois lados. O Irã fala em "propostas genuínas e construtivas", enquanto os Estados Unidos indicam que preferem uma solução negociada a um novo ciclo de confrontos abertos. Em Genebra, portanto, diplomacia cuidadosa e demonstração de força militar caminham lado a lado em um equilíbrio delicado e potencialmente volátil.



