Governo argentino gera controvérsia com vídeo no aniversário do golpe militar
No aniversário de 50 anos do golpe que instaurou uma ditadura militar na Argentina, completados nesta terça-feira (24), o governo do presidente Javier Milei divulgou um vídeo em suas redes sociais que critica opositores do regime autoritário e o kirchnerismo. O material, com duração de uma hora e quatorze minutos, foi publicado no Dia da Memória, data que marca o início do período ditatorial entre 1976 e 1983.
Conteúdo polêmico e relativização dos crimes
O vídeo apresenta duas entrevistas, sendo a primeira e mais extensa gravada na própria Casa Rosada. A entrevistada é identificada como Miriam Fernández, uma das centenas de crianças cujos pais biológicos foram mortos em centros clandestinos de prisão e tortura durante a ditadura. Fernández foi adotada ainda bebê por uma família leal aos militares de forma clandestina.
No material, ela defende seus pais adotivos – um ex-policial e sua esposa – que receberam penas de prisão. O pai foi condenado por reter e ocultar menor de idade, com agravante por outros crimes de lesa-humanidade, enquanto a mãe foi sentenciada como coautora. "Não podem te obrigar a dizer que são seus pais adotivos depois de 40 anos. Eles são meus pais", afirma Fernández. "Um pai não é aquele que te traz ao mundo, mas sim aquele que te cria."
Críticas às organizações de direitos humanos
A entrevistada também dirige críticas à Associação Avós da Praça de Maio, organização próxima ao governo Kirchner fundada por mães de desaparecidos durante a ditadura. A entidade dedica-se a identificar netos biológicos que foram adotados clandestinamente por apoiadores do regime militar. Embora reconheça que as Avós fazem um "trabalho bonito", Fernández acusa a associação de "misturar política" com suas ações.
Ela relata ainda ter sido obrigada a se submeter a um teste de DNA para determinar sua identidade biológica e expressa desejo de superar o passado: "Vamos deixar o passado em paz, porque ninguém vai trazer de volta minha família biológica, nem a dor que vivi como membro de uma família militar". Fernández conta que, após o fim da ditadura, sofreu preconceito por pertencer a uma família que apoiou o regime autoritário.
Contexto histórico e mobilizações
A ditadura militar argentina, que durou de 1976 a 1983, deixou um legado de violência e repressão. Estimativas indicam que mais de 30 mil opositores foram mortos durante o período, além de milhares torturados em centros clandestinos como a ESMA. O kirchnerismo retomou a luta para responsabilizar os generais que governaram o país durante esses anos autoritários.
Paralelamente à divulgação do vídeo governamental, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Buenos Aires em uma jornada de memória pelos 50 anos do golpe de Estado. Sob o lema "Nunca mais", a mobilização estendeu-se ao longo do quilômetro que separa a Praça de Maio da avenida 9 de Julho, com ruas adjacentes completamente tomadas por manifestantes.
Organismos de direitos humanos, sindicatos e organizações sociais convocaram manifestações em todo o país, levando fotos dos desaparecidos durante a ditadura. Esta prática de divulgar material que relativiza os crimes do regime militar no dia 24 de março tem se repetido no governo Milei, gerando debates acalorados sobre memória histórica e justiça.



