Italianos rejeitam reforma judicial de Giorgia Meloni em referendo histórico
Os italianos rejeitaram nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, a proposta de reforma judicial defendida pela primeira-ministra Giorgia Meloni, em um referendo que representa um significativo revés político para a líder de direita. Com 54% dos votos contra a medida, a população bloqueou as mudanças constitucionais que pretendiam reformular o Poder Judiciário do país.
Alta participação e celebração da oposição
A participação no referendo superou todas as expectativas, alcançando quase 60% do eleitorado, um índice notável para consultas populares na Itália. A vitória do "não" foi celebrada pela oposição, que viu no resultado um claro sinal de descontentamento com a coalizão governista.
Em Nápoles, cerca de 50 juristas reuniram-se no tribunal local e entoaram "Bella Ciao", o hino antifascista da Segunda Guerra Mundial, em uma demonstração simbólica de resistência às propostas do governo. O gesto evidenciou os profundos atritos entre a coalizão de direita e os magistrados italianos.
Conteúdo da reforma rejeitada
A proposta de reforma constitucional, aprovada pelo Parlamento em outubro de 2025, previa mudanças estruturais significativas:
- Separação das carreiras de juízes e procuradores públicos
- Divisão do Conselho Superior do Magistrado em duas seções distintas
- Seleção de membros por sorteio em vez de eleição
O governo argumentava que essas alterações tornariam o Judiciário mais responsável por seus próprios erros e reduziriam influências políticas nos cargos mais altos. No entanto, reconhecia que a reforma não resolveria um dos principais problemas do sistema: a excessiva lentidão processual.
Reações políticas ao resultado
Giorgia Meloni reagiu às redes sociais, afirmando: "É claro que lamentamos esta oportunidade perdida de modernizar a Itália, mas isso não altera nosso compromisso de continuar trabalhando com seriedade e determinação para o bem da nação". A primeira-ministra desvinculou seu futuro político do resultado e confirmou que cumprirá seu mandato até 2027, descartando qualquer possibilidade de renúncia.
Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro que renunciou após perder um referendo constitucional em 2016, comentou: "Este referendo constitucional deixou claro que Giorgia Meloni tem a confiança do governo, mas não a do povo. Quando isso aconteceu comigo, renunciei a tudo".
Do outro lado do espectro político, Giuseppe Conte, também ex-primeiro-ministro e líder do Movimento 5 Estrelas, declarou em suas redes sociais: "Conseguimos! Viva a Constituição", celebrando a vitória do "não".
Significado político da derrota
A rejeição da reforma judicial representa um baque incomum para Meloni, cujo partido acumulou quatro anos de vitórias consecutivas em eleições regionais e nacionais. Este era considerado o grande projeto legislativo de seu governo, e sua derrota em consulta popular abre um período de incerteza política.
A oposição já apresenta o resultado como uma consulta popular contra a gestão de Meloni, embora a primeira-ministra insista em separar o referendo específico sobre reforma judicial de uma avaliação geral de seu governo. O episódio revela as limitações do poder político frente à vontade popular expressa diretamente através de mecanismos democráticos.
A alta participação eleitoral demonstra o engajamento dos cidadãos italianos em questões constitucionais fundamentais, estabelecendo um precedente importante para futuras reformas estruturais no país. O resultado mantém intacta a atual estrutura do Judiciário italiano, preservando o modelo que tem sido alvo de críticas tanto por setores governistas quanto por parte da oposição ao longo dos anos.



