Irã elege Mojtaba Khamenei como novo líder supremo após morte do pai em ataques
Pouco depois da meia-noite de domingo (8), hora local, a televisão estatal iraniana interrompeu sua programação normal para um anúncio incomum e emotivo. O apresentador confirmou a escolha de Mojtaba Khamenei, filho do ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei (1939-2026), para substituir seu pai no comando da República Islâmica.
Sucessão em meio a guerra e crise nacional
O anúncio veio apenas oito dias depois que Ali Khamenei foi morto na primeira onda de ataques aéreos israelenses e americanos ao Irã, no dia 28 de fevereiro — o primeiro dia da guerra atual entre o Irã, os Estados Unidos e Israel. Sua morte marcou o choque de liderança mais dramático da história da República Islâmica desde a sua criação, durante a revolução de 1979.
A escolha do novo líder supremo do Irã ocorreu a portas fechadas. A decisão fica a cargo da Assembleia de Peritos, um grupo de 88 membros clérigos xiitas. Seu papel constitucional é supervisionar a liderança da República Islâmica e selecionar o sucessor na vacância do cargo. Em tempos normais, este processo já é obscuro. Em meio a uma guerra e uma crise nacional, ainda mais.
Um líder vindo dos bastidores
O público tem pouco conhecimento sobre Mojtaba Khamenei. Ele tem 56 anos e nunca foi eleito nem nomeado a nenhum cargo oficial dentro do Estado. Ele estudou teologia nos seminários da cidade sagrada de Qom, considerada um importante centro da teologia xiita.
Por alguns anos, ele lecionou religião, um passo comum entre os clérigos que esperam, algum dia, atingir o cargo de aiatolá, um dos sábios líderes dos xiitas. As aulas teriam sido interrompidas no ano passado por sua própria iniciativa, sem explicações claras. Mas acredita-se que seu pai não quisesse que ele fosse visto como se preparando para assumir a liderança do país no futuro.
Ali Khamenei relutava em envolver abertamente seus filhos em política ou em questões públicas, devido à sua rejeição a qualquer ideia de sucessão hereditária, após a retirada do trono da monarquia Pahlavi pela Revolução Islâmica de 1979.
Mas, nos bastidores, Mojtaba Khamenei era considerado profundamente envolvido na administração do escritório do líder — a mais poderosa instituição do país, com influência em questões de inteligência, militares, comerciais e políticas. Analistas defendem que ele exercia silenciosamente considerável influência sobre a política iraniana.
Interferência na política iraniana
Mais evidências da sua suposta interferência na política do país surgiram durante a eleição presidencial iraniana de 2005, que levou ao poder o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Muitos dentro do sistema político iraniano acreditam que o apoio de Mojtaba Khamenei durante a eleição de 2005 ajudou a mobilizar redes religiosas conservadoras e ligadas às forças de segurança para apoiar Ahmadinejad.
O anúncio da segunda vitória eleitoral de Ahmadinejad, em 2009, gerou protestos em massa. Figuras da oposição contestaram os resultados, incluindo o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi. As manifestações receberam forte repressão, e Mousavi permanece em prisão domiciliar há mais de 16 anos. Ahmadinejad governou o Irã até 2013.
Sistema construído em torno de um homem
As circunstâncias em torno da ascensão de Mojtaba dificilmente poderiam ser mais complexas. O Irã enfrenta um confronto militar direto com os Estados Unidos e Israel, enquanto ainda combate as consequências de um importante levante doméstico que buscava questionar o regime.
Há mais de quatro décadas, a República Islâmica do Irã opera de acordo com uma clara lógica interna: existe forte concorrência entre facções políticas e instituições em níveis inferiores de poder, mas a palavra final sempre pertence ao líder supremo.
A semana que se seguiu à morte de Ali Khamenei demonstrou simplesmente como o sistema depende desta estrutura. Sem um líder no poder, a tomada de decisões ficou paralisada e a incerteza se espalhou pelo sistema político.
Ao se movimentar rapidamente para nomear Mojtaba, o sistema parece disposto a enviar um sinal claro: não houve mudanças fundamentais e, como dizem as autoridades de forma privada, "o trabalho continua como de costume". Mas aceitar um novo líder não é tão simples quanto anunciar um.
Promessas de lealdade e alertas de segurança
Nas horas que se seguiram ao anúncio, começou a crescer a pressão dentro do sistema. Instituições políticas e militares começaram a anunciar publicamente sua lealdade ao novo líder. E o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) chegou a ir mais além.
Figuras importantes dentro da organização não só declararam obediência, mas também teriam se referido a Mojtaba como o novo "vice do Imã Oculto", uma poderosa expressão religiosa do discurso político xiita.
Paralelamente, foram emitidos alertas a potenciais manifestantes, indicando que o aparato de segurança pretende reagir com firmeza a qualquer questionamento, quando Mojtaba Khamenei assumir o poder. Estas medidas pretendem demonstrar unidade no topo do Estado, mas também servem a outro propósito.
Se as promessas de lealdade não forem claramente estabelecidas, a sucessão poderá criar a oportunidade de que facções políticas rivais ou críticos do sistema defendam mudanças. E os líderes parecem determinados a evitar que isso aconteça.
Questões de legitimidade e credenciais religiosas
Apesar da rápida consolidação do apoio da elite, o novo líder enfrenta sérias questões de legitimidade. Ao contrário de muitos clérigos experientes, Mojtaba Khamenei não é amplamente reconhecido nos círculos religiosos como aiatolá.
A TV estatal aparentemente preencheu esta lacuna ao se referir imediatamente a ele como "aiatolá Mojtaba Khamenei". O título parece ter sido adotado da noite para o dia, por muitos daqueles que já declararam sua lealdade.
Seu pai enfrentou questionamento similar em 1989, quando se tornou líder supremo sem as credenciais tradicionais. Mas existem importantes diferenças entre os dois. Ali Khamenei havia servido por quase uma década como presidente e tinha aliados poderosos em todo o sistema político.
Já seu filho passou a maior parte da sua carreira fora da visão do público. Muitas das figuras que, um dia, formaram o círculo próximo de Ali Khamenei (comandantes sênior, chefes de inteligência e operadores políticos) foram mortas durante a Guerra dos 12 Dias, em 2025, ou nos ataques aéreos da semana passada que mataram o pai, a mãe e a esposa de Mojtaba Khamenei.
Acreditou-se por vários dias que o próprio Mojtaba tivesse morrido naqueles ataques.
Caminho difícil à frente para o novo líder
Antes de formar a estratégia geral do Irã, o novo líder deve primeiro se estabelecer dentro da complexa estrutura de poder da República Islâmica. Isso significa emergir de décadas de discrição e demonstrar autoridade sobre comandantes militares recém-nomeados, facções políticas rivais e um sistema clerical que talvez não o aceite automaticamente.
Paralelamente, ele precisa tomar decisões relativas a uma guerra contra dois dos exércitos mais poderosos do planeta, que também alertaram que podem atacar o novo líder.
Entre o público em geral, a situação é ainda mais incerta. Muitas das pessoas que foram às ruas do Irã durante os recentes protestos esperavam que a morte de Ali Khamenei pudesse levar a um caminho político diferente.
Mas, agora, eles enfrentam um novo Khamenei — mais jovem, talvez mais enérgico, mas fortemente associado às mesmas instituições de segurança que ajudaram a sustentar o governo do seu pai.
Por enquanto, a República Islâmica tenta projetar estabilidade em uma época muito difícil. Mas será que Mojtaba Khamenei poderá transformar estas projeções em verdadeira autoridade? Esta é outra questão totalmente diferente, que pode definir não apenas o resultado desta guerra, mas o futuro do próprio Estado iraniano.
A BBC News Persa é o serviço de notícias da BBC em língua persa, utilizado por 24 milhões de pessoas ao redor do mundo — a maioria no Irã — apesar de ser bloqueado e rotineiramente alvo de interferência pelas autoridades iranianas.
