EUA indiciam Raúl Castro por derrubada de aviões há 30 anos
EUA indiciam Raúl Castro por derrubada de aviões

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (20/5) o indiciamento do ex-presidente de Cuba Raúl Castro, marcando uma nova fase crítica nas tensões históricas entre os dois países. O Departamento de Justiça americano revelou que Castro e outras cinco pessoas enfrentam acusações penais, incluindo conspiração para matar cidadãos americanos e assassinato, relacionadas à derrubada de duas aeronaves civis pela força aérea cubana há três décadas.

O caso dos Irmãos ao Resgate

O incidente ocorreu em 1996, quando aviões operados pelo grupo de exilados cubanos Irmãos ao Resgate, sediado em Miami, foram abatidos. Quatro pessoas morreram, três delas cidadãs americanas, o que agravou ainda mais os desentendimentos entre Washington e Havana, que perduram desde a Guerra Fria (1947-1991). Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa do governo cubano, então liderado por seu irmão Fidel Castro (1926-2016). Raúl governou a ilha entre 2008 e 2018 e, atualmente, com 94 anos, está aposentado da vida pública, embora ainda seja uma figura influente.

Acusação histórica

O indiciamento foi apresentado em Miami, berço do anticastrismo nos Estados Unidos, no dia da comemoração da independência cubana. Trata-se de uma medida sem precedentes: nunca antes Washington havia acusado formalmente um alto funcionário cubano por assassinato, esteja ele no cargo ou aposentado, ao longo de sete décadas de hostilidade. A ação levanta questionamentos sobre suas consequências formais e práticas.

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Crise econômica e pressão americana

Cuba enfrenta uma grave crise econômica, intensificada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pelo presidente americano Donald Trump. Trump declarou em maio que poderia tomar o controle da ilha "quase imediatamente". Os comentários e o indiciamento de Castro remetem ao ocorrido em janeiro na Venezuela, quando os Estados Unidos capturaram o então presidente Nicolás Maduro em uma operação militar, após acusá-lo de narcotráfico, assumindo maior influência sobre Caracas.

Interpretações de especialistas

Cynthia Arnson, especialista em relações entre EUA e América Latina da Universidade Johns Hopkins, destaca duas interpretações básicas para a decisão. "Uma é que faz parte de uma campanha de 'pressão máxima' sobre Cuba, com guerra psicológica como componente importante. A segunda está mais próxima do precedente da Venezuela", explica. No entanto, ela alerta que os paralelos entre Cuba e Venezuela não se sustentam em muitos aspectos, especialmente quanto à possibilidade de uma operação militar.

Pressões e dúvidas

A pressão de Trump sobre Havana é evidente. O embargo ao petróleo aprofundou a crise energética da ilha, que sofre longos apagões. Os EUA também anunciaram sanções a altos funcionários, órgãos do governo cubano e empresas estrangeiras com negócios no país. O diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Cuba na semana passada, reivindicando reformas políticas e econômicas e o fim de supostas atividades de espionagem chinesa e russa. Um de seus interlocutores foi Raúl Rodríguez Castro, neto e guarda-costas de Raúl Castro. Houve ainda aumento de voos de vigilância e divergências sobre ajuda humanitária de US$ 100 milhões oferecida por Washington.

Reações cubanas

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, declarou na segunda-feira (18/5) que uma eventual agressão militar "provocará um banho de sangue de consequências incalculáveis". Após o indiciamento, afirmou que se trata de "uma ação política, sem nenhum embasamento jurídico, que busca apenas engrossar o processo fabricado para justificar o desatino de uma agressão militar a Cuba".

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Semelhanças e diferenças com a Venezuela

A estratégia americana em relação a Havana tem similaridades com a usada em Caracas: sanções, isolamento econômico e diplomático, e busca de fissuras no governo. No entanto, especialistas apontam diferenças importantes. Brian Fonseca, da Universidade Internacional da Flórida, explica que "Cuba representa um desafio fundamentalmente diferente: o regime está mais institucionalizado, ideologicamente coeso e tem mais experiência em resistir a pressões externas". Além disso, Maduro ainda era presidente quando detido, enquanto Castro está afastado do poder formal há anos. William LeoGrande, da Universidade Americana, observa que "Castro ainda tem apoio e respeito entre as pessoas por ser um líder histórico da revolução". Uma eventual prisão poderia irritar muitos cubanos. A idade de Castro, 94 anos, também é um fator: "um risco de que ele seja morto por engano, e você terá assassinado um ex-chefe de Estado", alerta LeoGrande.

Incertezas sobre o futuro

Trump demonstrou disposição para assumir riscos em operações militares, como na Venezuela e no Irã, mas ainda não deu indicações claras sobre seus objetivos em Cuba ou se usará força militar. Diferentemente do caso venezuelano, não há sinais de um deslocamento militar ou de um plano para instalar um novo líder com apoio de Washington. LeoGrande questiona: "Não sei quem poderia ser, principalmente se for nomeado pelos Estados Unidos. A outra alternativa é tentar dirigir o país por conta própria, mas acredito que seja improvável, pois aprenderam a lição do Iraque".