Irã anuncia 'entendimento' com os EUA sobre acordo nuclear após rodada de negociações
O governo do Irã anunciou nesta terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, que alcançou um "entendimento sobre os principais princípios orientadores" de um possível novo acordo nuclear com os Estados Unidos. A declaração foi feita pelo chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ao fim de três horas e meia de negociações indiretas realizadas em Genebra, na Suíça.
Segundo Araghchi, houve progresso nas conversas, embora ainda não exista um acordo fechado. "Avanço não significa que um pacto esteja próximo, mas o caminho foi aberto", afirmou o ministro a jornalistas iranianos. A rodada é a segunda realizada neste mês e ocorre sob mediação diplomática, em meio a um ambiente de forte tensão regional.
Ormuz no centro da pressão estratégica
No mesmo dia das negociações, Teerã anunciou o fechamento temporário de partes do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. A justificativa oficial foi a realização de exercícios navais da Guarda Revolucionária.
A agência Fars, ligada ao aparato militar iraniano, informou que a interrupção ocorreu para garantir a segurança da navegação durante o exercício batizado de "Controle Inteligente do Estreito de Ormuz". As manobras começaram na véspera e envolvem:
- Navios de guerra
- Helicópteros militaresDrones de vigilância
- Testes de mísseis
O comandante naval da Guarda Revolucionária, almirante Alireza Tangsiri, afirmou que a decisão de fechar completamente o estreito depende das "mais altas autoridades do sistema", mas ressaltou que as forças estão preparadas para executar a ordem caso ela seja dada.
Negociações sob ameaça militar
As tratativas em Genebra ocorrem sob advertências explícitas de Washington. O presidente americano Donald Trump determinou o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln e de seu grupo de ataque ao Oriente Médio, além de autorizar o deslocamento do USS Gerald R. Ford para a região.
A movimentação é vista como demonstração de força para pressionar Teerã a aceitar limitações mais rígidas ao seu programa nuclear. O impasse remete ao acordo firmado em 2015 entre o Irã e as potências do chamado P5+1, que previa restrições ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções.
Os Estados Unidos deixaram o pacto em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, o que levou Teerã a reduzir gradualmente seus compromissos. Agora, segundo fontes diplomáticas ouvidas por agências internacionais, a discussão gira em torno de:
- Garantias verificáveis sobre o programa nuclear iraniano
- Mecanismo claro para suspensão de sanções econômicas
Teerã insiste que qualquer acordo precisa assegurar benefícios financeiros concretos e proteção contra futuras retiradas unilaterais americanas.
Contexto interno de pressão política
O avanço das negociações ocorre semanas após uma onda de protestos no Irã, que resultou em milhares de mortes, segundo números divulgados por autoridades locais. As manifestações, iniciadas contra o sistema político instaurado após a Revolução Islâmica de 1979, aumentaram a pressão interna sobre o regime.
Para analistas, o governo iraniano tenta equilibrar duas frentes: demonstrar disposição para um acordo que alivie a crise econômica agravada por sanções e, ao mesmo tempo, projetar força militar para manter sua posição estratégica no Golfo.
O "entendimento" anunciado em Genebra sugere um início de convergência diplomática, mas a distância entre princípios gerais e um tratado formal ainda é significativa. O estreito de Ormuz continua sendo um dos pontos mais sensíveis da geopolítica global, onde qualquer bloqueio prolongado pode elevar os preços do petróleo e provocar instabilidade nos mercados financeiros internacionais.



