Hungria é acusada de vazar informações da UE para a Rússia em meio a eleição crucial
Hungria acusada de vazar dados da UE para Rússia antes de eleição

Acusações de vazamento de informações da UE para Moscou abalam governo húngaro às vésperas de eleição decisiva

Em meio a uma campanha eleitoral crucial que pode encerrar seus 14 anos no poder, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán enfrenta graves acusações de que seu governo estaria vazando informações confidenciais da União Europeia para a Rússia. A revelação, publicada pelo jornal americano The Washington Post, surge em um momento particularmente delicado nas relações entre Budapeste e Bruxelas, apenas três semanas antes das eleições parlamentares de 12 de abril.

Ministro acusado de contatos frequentes com Lavrov durante reuniões europeias

Segundo a reportagem do Washington Post publicada no sábado (21), o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó, teria mantido por anos um canal de comunicação direto com seu homólogo russo, Sergei Lavrov, fornecendo-lhe informações retiradas de reuniões do Conselho Europeu. Fontes de inteligência não identificadas afirmaram ao jornal que Szijjártó era tão assíduo no contato que chegava a telefonar para Lavrov até mesmo durante intervalos dos encontros que reúnem representantes dos 27 países-membros do bloco europeu.

O alinhamento de Budapeste com Moscou não constitui novidade nos círculos diplomáticos. Registros oficiais demonstram que o ministro húngaro esteve na Rússia por 16 ocasiões distintas desde o início da invasão da Ucrânia em 2022. Sua visita mais recente ocorreu em 4 de março, quando se encontrou pessoalmente com o presidente Vladimir Putin.

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Reação do governo húngaro e contexto eleitoral tenso

Péter Szijjártó reagiu imediatamente às acusações através da rede social X, classificando-as como "fake news" e afirmando: "Vocês estão espalhando mentiras para ajudar o Partido Tisza a instalar um governo fantoche pró-guerra na Hungria". A referência direta ao principal adversário político de Orbán reflete a intensidade da disputa eleitoral, onde pesquisas recentes indicam que o partido de Péter Magyar conta com 48% de apoio popular, contra 39% do Fidesz, a legenda populista que governa o país desde 2010.

Viktor Orbán, figura central do autoritarismo conservador europeu e frequente crítico das lideranças da UE, enfrenta seu maior desafio eleitoral em mais de uma década. Seu governo foi recentemente alvo de novas tensões com Bruxelas quando utilizou o poder de veto para bloquear um empréstimo de 90 bilhões de euros destinado à Ucrânia, justificando a decisão com argumentos de segurança nacional relacionados à manutenção de um gasoduto russo em território ucraniano.

Divisões políticas e apoio internacional a Orbán

Apesar das graves acusações, a reação inicial de Bruxelas e de boa parte da oposição húngara tem sido cautelosa, com muitos temendo alimentar o sentimento nacionalista que o Fidesz busca explorar para reverter sua desvantagem nas pesquisas. Esta cautela explica as respostas moderadas ao veto húngaro da semana passada, um movimento que em circunstâncias anteriores gerou pedidos formais de punição à Hungria e até propostas de reforma nos processos decisórios europeus.

No cenário internacional, as divisões são evidentes. Enquanto o primeiro-ministro polonês Donald Tusk, crítico frequente de Orbán, comentou no X que "já tínhamos nossas suspeitas sobre isso há muito tempo", o presidente polonês Karol Nawrocki viajou a Budapeste nesta segunda-feira (23) para participar da campanha do colega conservador. O apoio externo a Orbán inclui ainda uma declaração em vídeo de Donald Trump no sábado e visitas recentes de autoridades americanas como Mark Rubio, secretário de Estado dos EUA, que afirmou durante sua estadia em Budapeste que o sucesso húngaro representaria um sucesso americano.

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Fatores econômicos e alegações de interferência russa

Analistas políticos apontam que a queda nas pesquisas do governo Orbán deve-se principalmente a questões econômicas, com o ex-aliado Péter Magyar adotando a bandeira anticorrupção que ressoa as conexões do primeiro-ministro com Putin. Denúncias sugerem que a dependência húngara do gás russo, frequentemente utilizada como argumento por Orbán nos debates europeus, não seria meramente uma construção de contingências geopolíticas, mas sim resultado de interesses de pessoas próximas ao seu gabinete.

Documentações indicam pelo menos algum nível de participação de Moscou na corrida eleitoral húngara. Diferentemente de acusações anteriores de interferência em eleições europeias, desta vez os serviços secretos russos estariam trabalhando ativamente para manter Orbán no poder. O Washington Post relata inclusive que o SVR, agência de inteligência externa russa, teria recomendado "encenar uma tentativa de assassinato" contra o primeiro-ministro húngaro, na avaliação de que tal evento poderia alterar radicalmente o paradigma eleitoral.

A assessoria de Viktor Orbán, procurada pelo jornal americano para comentar as acusações, não respondeu aos pedidos de esclarecimento. Com a eleição se aproximando rapidamente, estas revelações adicionam uma camada adicional de complexidade a um processo eleitoral que já se mostrava extremamente polarizado e decisivo para o futuro político da Hungria e suas relações com a União Europeia.