Argentina enfrenta paralisação histórica em meio à votação da reforma trabalhista
A Argentina vive um dia de tensão e mobilização social nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, com uma greve geral de 24 horas organizada pela Frente Sindical Unida (FreSU) enquanto o Senado discute a reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei. A paralisação, que reúne mais de 100 sindicatos de diferentes setores, ocorre em um momento crucial para o governo ultraliberal, que busca aprovar mudanças estruturais no mercado de trabalho antes de março.
Impacto imediato nos serviços públicos e manifestações em Buenos Aires
Os efeitos da greve já são sentidos em diversos serviços essenciais em todo o país. Segundo a FreSU, polícias municipais, agentes de trânsito e serviços de coleta de lixo estão entre os setores mais afetados pela paralisação. Nos hospitais, apenas o número mínimo de funcionários está garantido para atendimentos de emergência, criando preocupações sobre a capacidade do sistema de saúde durante as 24 horas de protesto.
Os manifestantes começaram a se concentrar a partir das 10h na Avenida de Mayo, em Buenos Aires, com uma marcha programada até o Congresso Nacional. O lema escolhido para o ato é "Contra a reforma trabalhista, pelos nossos direitos e por aumentos salariais já", refletindo as principais demandas dos trabalhadores argentinos que enfrentam inflação elevada e perda de poder de compra.
Divisão no movimento sindical e ausência da CGT
Diferentemente da paralisação realizada na semana passada, a nova greve não conta com o apoio da Confederación General del Trabajo (CGT), a principal central sindical do país. A CGT optou por uma estratégia diferente: aguardar o resultado da votação no Senado e, em caso de aprovação da reforma, recorrer à Justiça para contestar a constitucionalidade das medidas.
Esta divisão no movimento sindical reflete as diferentes táticas adotadas para enfrentar o pacote de reformas defendido por Milei, que a CGT classifica como "regressivo e inconstitucional". Enquanto a FreSU aposta na mobilização direta nas ruas, a CGT prefere o caminho institucional e jurídico para combater as mudanças.
Principais pontos da polêmica reforma trabalhista
O projeto que volta ao Senado após modificações na Câmara dos Deputados inclui mudanças profundas na legislação trabalhista argentina:
- Ampliação do período de experiência para até seis meses, podendo chegar a oito ou doze meses em alguns casos específicos, com indenizações reduzidas em caso de demissão
- Flexibilização da jornada de trabalho, permitindo até doze horas diárias com compensação de horas em dias posteriores
- Mudanças significativas nas regras de demissão e possibilidade de parcelamento de indenizações trabalhistas
- Restrições ao direito de greve em serviços considerados essenciais, exigindo funcionamento mínimo entre 50% e 75% durante paralisações
- Flexibilização das regras sobre férias e alterações no sistema de negociação coletiva entre patrões e empregados
Para viabilizar a tramitação, o governo negociou cerca de trinta alterações no texto original, incluindo a retirada de um artigo polêmico que permitiria o pagamento de salários em moeda estrangeira ou através de carteiras digitais. A reforma não se aplica a servidores públicos nacionais, provinciais ou municipais, exceto nas regras relativas a greves em serviços essenciais.
Contexto econômico e social da Argentina
Segundo dados da Pesquisa Permanente de Domicílios do Indec referente ao terceiro trimestre de 2025, a Argentina tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e aproximadamente 1 milhão de desempregados, representando uma taxa de desocupação de 6,6%. Apesar deste índice relativamente estável, o país enfrenta desafios econômicos significativos, incluindo inflação elevada, perda progressiva do poder de compra da população e um forte ajuste fiscal promovido pelo governo de Milei.
Desde que assumiu a presidência, Javier Milei implementou uma série de cortes de gastos públicos e medidas de desregulação econômica que dividiram profundamente a sociedade argentina. Enquanto setores empresariais defendem as reformas como necessárias para recuperar a confiança dos investidores e atrair capital estrangeiro, sindicatos e movimentos sociais acusam o governo de precarizar direitos históricos conquistados pelos trabalhadores ao longo de décadas.
Agenda paralela no Senado e dimensão regional da crise
Além da reforma trabalhista, o Senado argentino também deve discutir nesta sexta-feira a redução da maioridade penal do país de 16 para 14 anos, outra proposta apoiada pelo presidente Milei. Esta medida, assim como a reforma trabalhista, faz parte do pacote de mudanças estruturais defendido pelo governo para transformar diversos aspectos da sociedade argentina.
A greve desta sexta-feira e seus efeitos, que se estendem inclusive para relações com países vizinhos como o Brasil, evidenciam a dimensão regional da crise política e econômica argentina. O país vive um momento de intensa polarização enquanto o governo tenta acelerar mudanças estruturais sob forte contestação social, criando um cenário de incerteza tanto para trabalhadores quanto para investidores.



