Fukushima 15 Anos Depois: A Cidade Vazia e a Escola que Sobreviveu ao Tsunami
Fukushima 15 Anos: Cidade Vazia e Escola que Sobreviveu

Fukushima 15 Anos Depois: Entre o Abandono e a Memória

A estrada parece comum, com asfalto novo e faixas recentemente repintadas. Postes de luz se alinham ordenadamente ao longo da pista, mas quase não há carros circulando. Estou retornando a Fukushima quinze anos após a tríplice catástrofe de 11 de março de 2011 — o terremoto de magnitude 9.0, o tsunami devastador e o acidente na usina nuclear de Fukushima Daiichi, considerado o pior desastre nuclear desde Chernobyl. Convidado pelo governo japonês através do Ministério do Meio Ambiente para participar de um tour com jornalistas internacionais, a proposta oficial era mostrar os projetos de reconstrução e as iniciativas para recuperar uma região que se tornou sinônimo de tragédia.

Uma História Pessoal de Cobertura

Para mim, porém, esta viagem possui significado especial. Acompanhei esta história desde seu início, estando no Japão na tarde em que o terremoto sacudiu o nordeste do país. Testemunhei, como milhões, as imagens do tsunami avançando sobre cidades inteiras. Cheguei à região devastada apenas dois dias depois e, nos anos seguintes, retornei diversas vezes para reportar sobre as consequências do desastre. Estive presente quando a tragédia completou dez anos e agora retorno pela primeira vez poucos dias antes do aniversário de quinze anos. Esta experiência provoca sensações complexas — parte de mim busca observar os sinais de reconstrução que o Japão deseja mostrar ao mundo, enquanto outra parte revisita lugares onde a história parece ter ficado suspensa no tempo.

A Cidade sem Pessoas

O carro avança por uma estrada quase deserta em direção às áreas mais próximas da usina nuclear, onde o acesso exige autorização especial. Após o acidente nuclear, grande parte das terras nesta região foi adquirida pelo governo japonês, permanecendo inacessível por anos. A paisagem gradualmente se transforma: casas surgem entre vegetação que cresceu sem controle, estacionamentos vazios e carros abandonados pontuam o cenário. O que realmente falta aqui não são estruturas físicas, mas pessoas.

Quinze anos após o desastre, numerosas residências permanecem exatamente como foram deixadas no dia em que seus moradores foram evacuados. Em um quintal, uma bicicleta enferrujada ainda está encostada na parede. Em outro, um automóvel permanece estacionado na garagem aberta, coberto por espessa camada de poeira e folhas secas. Diante de um galpão, uma empilhadeira oxidada se degrada lentamente com a passagem do tempo — ninguém voltou para recuperá-la.

Passamos por um centro de cuidados para idosos cujo prédio permanece em pé, silencioso. Segundo os guias, funcionários tiveram que evacuar pacientes às pressas nos dias seguintes ao acidente nuclear, sem tempo para organizar pertences. Através das janelas empoeiradas, ainda é possível visualizar cadeiras e equipamentos médicos abandonados. Há algo profundamente inquietante neste tipo específico de abandono. Enquanto cidades destruídas por guerras ou terremotos geralmente exibem marcas visíveis de violência — paredes desmoronadas, ruas destruídas, montanhas de escombros — aqui tudo parece intacto. Talvez seja exatamente esta aparente normalidade que torna a paisagem tão perturbadora: o desastre não destruiu a cidade fisicamente, mas simplesmente expulsou seus habitantes.

A Escola que Desafiou o Mar

A poucos quilômetros dali, encontro outro tipo de memória preservada. Em Namie, próximo ao litoral, a Escola Primária Ukedo permanece como memorial silencioso da tarde em que o mar avançou sobre a cidade. Localizada a aproximadamente 300 metros do oceano, esta era a única escola primária do distrito de Ukedo antes do desastre, reconstruída em 1998. No fatídico 11 de março de 2011, havia 93 alunos matriculados.

Quando o terremoto começou às 14h46, as salas de aula estavam cheias. O tremor foi tão violento que mesas deslizaram pelo chão, algumas se movendo dezenas de centímetros enquanto as crianças se protegiam embaixo delas. Após o solo parar de tremer, os professores fizeram chamada e ordenaram que todos se dirigissem ao pátio. Minutos depois, chegou o alerta de tsunami. Os educadores tomaram uma decisão simples porém crucial: não esperar. Eles organizaram as crianças rapidamente e iniciaram a corrida em direção ao Monte Ohira, situado cerca de um quilômetro e meio da escola.

Os alunos correram sem mochilas, sem casacos, alguns vestindo apenas o uniforme leve da instituição. Enquanto subiam a montanha, um som profundo e crescente começou a emergir do lado do mar — como se a própria terra estivesse se movendo. Minutos depois, o tsunami atingiu a cidade, com águas avançando pelas ruas e arrastando carros, casas e barcos. Quando alcançou a escola, subiu até o segundo andar do prédio. Do alto da montanha, professores e alunos testemunharam a transformação da cidade em um mar de destruição, mas todos permaneciam vivos. Dos 93 alunos matriculados, 82 estavam presentes na escola naquele momento — e todos escaparam com seus professores. Nenhuma criança morreu naquela instituição.

Memorial Vivo da Tragédia

Hoje, o prédio escolar serve como memorial permanente. Caminhar por seus corredores é como entrar em um edifício que ainda tenta processar o que aconteceu. As salas de aula foram transformadas em espaços de memória, com cadeiras alinhadas como se aguardassem alunos que nunca retornarão. Um quadro-negro ainda ocupa a parede, enquanto grandes janelas permitem a entrada da luz do Pacífico — o mesmo oceano que, naquele dia, avançou sobre a cidade.

No ginásio da escola, o piso de madeira está rasgado como se tivesse sido levantado por força invisível, com tábuas quebradas curvando-se para cima e revelando a estrutura subjacente. No teto, placas inteiras desapareceram, deixando vigas metálicas expostas e cabos pendendo no ar. Em um corredor lateral, uma sala mostra onde a água entrou com violência suficiente para arrancar paredes e arrastar móveis — um armário metálico permanece tombado no chão, coberto por poeira e ferrugem.

Em outra parte do edifício, fileiras de torneiras infantis estão presas a uma longa pia amarela. A água não corre ali há anos, e as torneiras apresentam manchas verdes de corrosão causada pelo tempo e pelo sal trazido pelo mar. Cada espaço parece narrar uma parte diferente da mesma história — a da água chegando com força suficiente para transformar uma escola inteira em destroços.

No centro de uma das salas, dentro de uma vitrine de vidro, está o que restou do relógio que ficava no prédio. O impacto do tsunami o deformou completamente, deixando o metal retorcido como folha amassada. Os números ainda são visíveis, mas o tempo ali deixou de existir. Esta escola conta simultaneamente duas histórias: a da destruição impiedosa e a da decisão humana que salvou dezenas de crianças. Naquele dia crucial, alguém compreendeu algo essencial: não havia tempo para esperar. Era preciso correr e subir a montanha.

Dois Desastres, Duas Paisagens

Ao deixar a escola e retornar à estrada, a paisagem muda novamente. As ruas voltam a ficar vazias, as casas reaparecem abandonadas. Aqui não existem marcas de água nas paredes, janelas quebradas ou escombros visíveis. A cidade parece intacta, mas permanece deserta.

Quinze anos após a tragédia, Fukushima preserva duas paisagens distintas do desastre. Uma onde a destruição é visível — gravada nas paredes da escola, nas estruturas rasgadas pelo mar, nas marcas deixadas pela água. E outra onde o desastre permanece invisível aos olhos — uma cidade que não foi fisicamente destruída, mas simplesmente abandonada. O tsunami levou casas e estruturas; a radiação levou embora as pessoas. Entre estas duas realidades, Fukushima ainda busca responder a uma pergunta complexa: como reconstruir uma comunidade onde o tempo parece ter parado?

Esta reportagem representa uma tentativa de compreender como duas forças distintas — o mar e a radiação — redesenharam a mesma região, criando cenários paradoxais de memória visível e abandono invisível que continuam a definir Fukushima uma década e meia após a tragédia.