EUA e Irã mantêm negociações nucleares em Viena apesar de tensões militares crescentes
EUA e Irã seguem em negociações nucleares em meio a tensões militares

EUA e Irã mantêm diálogo nuclear em Viena apesar de escalada militar

Em um cenário de crescente tensão militar, as delegações dos Estados Unidos e do Irã decidiram prosseguir com as negociações sobre o controverso programa nuclear do país persa. Os encontros estão agendados para a próxima semana em Viena, capital da Áustria, sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Esta decisão ocorre mesmo diante do acúmulo significativo de preparativos bélicos por parte dos americanos, que mobilizaram uma impressionante força naval e aérea na região do Oriente Médio.

Conversas difíceis em Genebra com mediação de Omã

Nesta quinta-feira (26), os rivais históricos realizaram negociações indiretas em Genebra, na Suíça, sob a habilidosa mediação do Sultanato de Omã. O chanceler omani, Badr al-Busaidi, afirmou que houve "progressos significativos" durante os debates. Contudo, autoridades americanas, em declarações a diversos meios de comunicação, caracterizaram as discussões como "difíceis" e "frustrantes", revelando a complexidade do impasse.

Do lado iraniano, o chanceler Abbas Araghchi, que lidera a delegação, avaliou que as conversas foram "as mais sérias até aqui". Ele reconheceu que "um bom progresso foi feito em algumas questões", mas alertou que "ainda há diferenças em certas áreas". A delegação americana, comandada pelo negociador Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do ex-presidente Donald Trump, ainda não se pronunciou oficialmente sobre os detalhes.

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Mecanismo de diálogo indireto e histórico do acordo nuclear

O formato das negociações segue sendo indireto, uma prática estabelecida desde as fracassadas conversas de 2025 e mantida nas rodadas anteriores. Neste modelo, um lado apresenta suas propostas ao mediador omani, Badr al-Busaidi, que então as transmite à contraparte. A última vez em que americanos e iranianos dialogaram diretamente foi durante a costura do acordo nuclear de 2015.

Aquele histórico acordo, do qual os Estados Unidos se retiraram em 2018 sob a administração Trump, previa que o Irã reduzisse sua capacidade de enriquecimento de urânio para níveis civis (3,75%), diminuísse seus estoques do material e desmantelasse equipamentos vitais. Em troca, o país teria alívio nas sanções ocidentais. Com o rompimento, as sanções foram retomadas e a hostilidade aumentou. Desde 2022, Teerã praticamente dobrou seu estoque de urânio enriquecido para 440 kg e elevou o enriquecimento para 60%, nível que, segundo a AIEA, permite produzir entre 10 e 15 bombas de baixo rendimento.

Contexto de tensão militar e demandas maximalistas

O impasse nuclear se agravou com as guerras de Israel após o ataque terrorista do Hamas em 2023, grupo apoiado pelo Irã, levando a crise para o campo militar. Em junho passado, Israel iniciou uma guerra de 12 dias com bombardeios que expuseram vulnerabilidades iranianas. Trump interveio para encerrar o conflito, atacando pela primeira vez três alvos do programa nuclear iraniano.

Atualmente, os Estados Unidos montaram um cerco aeronaval ao Irã, o maior desde a Guerra do Iraque em 2003. O porta-aviões USS Gerald Ford rumou para a costa de Israel, podendo participar de um ataque coordenado. Ao todo, os americanos mobilizaram 18 navios de guerra e cerca de 200 aeronaves em diversas bases. Em paralelo, a China divulgou imagens de caças americanos F-22 em Israel, através da empresa MizarVision, facilitando o planejamento militar de aliados no Irã.

Segundo o Wall Street Journal, as demandas de Trump são maximalistas: ele exige o fim completo do programa nuclear e zero enriquecimento de urânio, oferecendo apenas reduções mínimas nas sanções. Os iranianos, por sua vez, desejam retornar a um acordo similar ao de 2015, com redução na capacidade de enriquecimento por até cinco anos.

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Recomendações de segurança e impacto regional

A tensão é generalizada e afeta a segurança regional. Mais de dez países, incluindo o Brasil, recomendaram a saída de seus cidadãos do Irã e pediram que viagens ao país fossem evitadas. Empresas aéreas, como a holandesa KLM, já anunciaram a suspensão de voos para Israel. Além disso, Israel bombardeou posições do Hezbollah no Líbano, em um movimento visto como preparatório para aliviar pressão em seu flanco norte em caso de guerra.

As negociações em Viena serão focadas, segundo os mediadores omanis, em "aspectos técnicos e nucleares". O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, atuou como observador nos debates em Genebra e continuará acompanhando o processo. O mundo aguarda com apreensão se o diálogo diplomático conseguirá prevalecer sobre a lógica militar que ameaça mergulhar a região em um conflito de proporções imprevisíveis.