EUA e Irã retomam negociações nucleares em Genebra sob mediação de Omã
Negociadores dos Estados Unidos e do Irã recomeçaram nesta quinta-feira (26) conversas sob intermediação de Omã em Genebra, na Suíça, para tentar avançar um acordo sobre o programa nuclear da teocracia iraniana. Do lado americano estão presentes o negociador Steve Witkoff e o genro presidencial Jared Kushner, enquanto os iranianos são liderados pelo chanceler Abbas Araghchi nas conversas indiretas.
Antes do encontro, a mídia estatal de Teerã afirmava que as perspectivas eram positivas, mas o clima geral é de pessimismo. O encontro é visto como uma das últimas chances antes de Donald Trump cumprir a ameaça de atacar o país persa, o que poderia gerar consequências inauditas - desde a instalação de uma ditadura militar em caso de decapitação do regime até uma guerra civil, as possibilidades são várias e preocupantes.
Histórico de desconfiança entre os países
A relação de desconfiança entre Irã e EUA remonta a 1953, quando Washington e Londres patrocinaram a derrubada do governo que havia nacionalizado uma empresa petrolífera britânica. O golpe colocou no poder o xá Reza Pahlevi, altamente impopular. Em 1979, religiosos fundamentalistas liderados pelo então exilado aiatolá Ruhollah Khomeini tomaram o poder e o xá fugiu para os EUA, fundando a República Islâmica.
A crise dos reféns na embaixada americana em Teerã, prego no caixão do governo de Jimmy Carter, acabou de vez com as relações diplomáticas entre os ex-aliados. De 1980 a 1988, o Irã travou uma sangrenta guerra com o Iraque, cujo ditador Saddam Hussein recebia apoio dos EUA que depois o derrubariam.
Tensão nuclear e acordos fracassados
Após a primeira Guerra do Golfo (1991), os EUA buscaram conter a proliferação de armas de destruição em massa na região, levando a um embargo total à venda de petróleo e gás pelos iranianos. Teerã tinha um programa nuclear assistido pela ONU desde os anos 1950, mas nos anos 1980 a suspeita de que ele servia para disfarçar a busca pela bomba cresceu significativamente.
Em 2013, Barack Obama iniciou a negociação com o moderado Hassan Rouhani, chamando à mesa seus aliados europeus, a Rússia e a China. O resultado veio dois anos depois, com o JCPA (Plano de Ação Global Conjunto), em que Teerã submeteu seu programa a um regime de inspeção e renunciou à busca pela bomba na prática, em troca do fim de sanções ocidentais e a liberação de US$ 100 bilhões congelados.
Trump e a aceleração do programa nuclear
Como presidente, Trump fez os EUA saírem do JCPA em 2018, afirmando que os iranianos apenas ganhavam tempo rumo à bomba. Passou à fase de coerção militar, pressionando Teerã a negociar sob a ameaça de ataques às instalações do programa. Trump ordenou a morte do principal general do país, e depois uma operação israelense assassinou um cientista nuclear vital.
Pressionada, a teocracia acelerou a produção de material físsil, que é enriquecido em ultracentrífugas. A agência da ONU diz que as "linhas vermelhas" estão rompidas e que a bomba está à mão do Irã em questão de meses. Hoje, a Agência Internacional de Energia Atômica afirma haver 440 kg de urânio enriquecido a 60%, suficientes para talvez 15 bombas de baixa potência.
Enfraquecimento do regime e protestos
Isso tudo ocorreu em momento de fraqueza do regime iraniano. Primeiro, problemas econômicos e sociais levaram a protestos inéditos em 2022. Depois, a guerra disparada pelo aliado Hamas contra Israel levou à destruição de boa parte da defesa primária de Teerã. Em 2024, o presidente radical Ebrahim Raisi morreu em uma estranha queda de helicóptero.
Após duas trocas de fogo diretas com o Irã, Israel atacou o rival por 12 dias em junho passado, dominando os céus sobre Teerã rapidamente. Os aiatolás lançaram 600 mísseis contra o Estado judeu, mas quase 90% foram abatidos. Sem um acordo diplomático, Trump bombardeou em junho pela primeira vez a teocracia, atingindo três centrais nucleares.
A hora da verdade nas negociações
Com novos e maciços protestos de rua contra o regime na virada para 2026, Trump prometeu apoiar os manifestantes, mas recuou de um ataque por não ter forças suficientes no Oriente Médio e os viu massacrados. Enquanto desloca o maior contingente aeronaval desde 2003 para a região, retoma as negociações com o Irã, primeiro em Omã e, depois, na representação omani em Genebra.
O clima é de pessimismo, pois Trump quer o fim completo do programa nuclear, enquanto Teerã oferece limitá-lo e renunciar à bomba. Os EUA também querem restringir o programa de mísseis balísticos, um pedido de Israel, aliado presumido numa guerra e alvo dessas armas. O americano promete atacar, seja de forma mais pontual, seja para derrubar o regime, tornando estas negociações cruciais para o futuro da região.



