Peruanos decidem futuro em eleição histórica com cenário imprevisível
Os peruanos comparecem às urnas neste domingo, 12 de abril de 2026, em uma disputa eleitoral marcada por um número recorde de candidatos e a esperança de romper um ciclo de turbulência política que persiste há mais de uma década. Nenhum presidente conseguiu completar um mandato integral nos últimos anos, em meio a escândalos de corrupção, aumento significativo da criminalidade e profunda frustração popular.
Processo eleitoral e características únicas
As seções eleitorais abriram às 7h no horário local, equivalente às 9h em Brasília, e permanecerão funcionando até as 17h. Cerca de 27 milhões de cidadãos estão aptos a votar não apenas para escolher um novo presidente, mas também para eleger os integrantes de um congresso bicameral que foi recentemente restabelecido. Um aspecto curioso desta eleição são as cédulas de papel que medem impressionantes 44 centímetros, as mais longas já utilizadas na história do país, o que reflete a quantidade extraordinária de candidatos em disputa.
Cenário fragmentado e possibilidade de segundo turno
As pesquisas de opinião mais recentes indicam que a candidata de direita Keiko Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori, mantém uma pequena vantagem sobre seus concorrentes. Entretanto, essa liderança é extremamente tênue, com pelo menos três outros candidatos seguindo-a de perto nas intenções de voto. Entre eles destacam-se dois ex-prefeitos da capital Lima: o ultraconservador Rafael López Aliaga e o empresário de mídia Ricardo Belmont, além do outsider político Carlos Alvarez, que anteriormente atuava como comediante.
Urpi Torrado, da renomada empresa de pesquisas Datum Internacional, confirma que os três candidatos que aparecem atrás de Fujimori estão em empate técnico, tornando o cenário eleitoral particularmente fragmentado. Nenhum dos concorrentes consegue ultrapassar a marca de 15% nas pesquisas de intenção de voto, o que torna praticamente inevitável a realização de um segundo turno em junho, conforme análise de especialistas políticos.
Eleitores indecisos e declínio institucional
Nicolas Watson, da consultoria Teneo, alerta que aproximadamente 13% dos eleitores permanecem indecisos, um percentual significativo que pode alterar completamente o panorama eleitoral. Este alto nível de indecisão significa que candidatos que aparecem em um segundo pelotão nas pesquisas, mesmo com apoio entre 4,5% a 6%, não podem ser ignorados na contagem final.
Para muitos analistas e cidadãos peruanos, esta disputa fragmentada reflete um declínio institucional mais profundo que afeta o país há anos. Desde 2018, o Peru já teve oito presidentes diferentes, com líderes sofrendo impeachment, sendo presos ou sendo forçados a deixar o cargo prematuramente. Fernando Tuesta, respeitado analista político, afirma que estas eleições podem representar uma ruptura definitiva com este ciclo de instabilidade ou, ao contrário, manter o país preso aos mesmos problemas estruturais.
Principais preocupações: corrupção e segurança pública
A luta contra a corrupção continua sendo um tema central na campanha eleitoral, especialmente considerando que quatro ex-presidentes peruanos estão atualmente cumprindo pena na prisão, a maioria envolvida em casos de suborno relacionados à empresa de construção Odebrecht. Alberto Fujimori, pai de Keiko, cumpriu 16 anos de prisão por abusos de direitos humanos e faleceu em 2024 após ser libertado por razões humanitárias.
Entretanto, a insegurança pública agora rivaliza e em muitos casos supera a corrupção como principal preocupação dos eleitores. Paula Muñoz, professora da Universidad del Pacífico em Lima, explica que o Peru não era tradicionalmente associado ao crime organizado, mas os homicídios e casos de extorsão aumentaram dramaticamente nos últimos anos, afetando principalmente trabalhadores do setor de transportes e pequenas empresas.
Dados oficiais alarmantes mostram que os casos de extorsão aumentaram quase 20% apenas no ano passado, enquanto as taxas de homicídio atingiram novos recordes históricos. Este aumento vertiginoso da criminalidade alimentou o apoio a respostas mais duras e populistas da direita política, refletindo uma tendência latino-americana mais ampla onde o crime é cada vez mais visto como uma questão que deve ser tratada por líderes da linha-dura, seguindo o exemplo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Propostas controversas dos candidatos
Algumas propostas apresentadas pelos candidatos incluem medidas extremas como:
- Envio de tropas militares para áreas de alta criminalidade
- Restabelecimento da pena de morte
- Retirada do país de tribunais internacionais de direitos humanos
- Permissão para que magistrados que lidam com casos criminais permaneçam anônimos
Esta última medida restabeleceria os chamados "juízes sem rosto", uma prática que o Peru não adota desde 1997 e que é altamente controversa por questões de transparência e direitos humanos. O resultado destas eleições determinará não apenas o próximo governo, mas também o rumo que o país tomará em relação a estas questões fundamentais de segurança, justiça e estabilidade política.



