Crise energética em Cuba força população a cozinhar com carvão e lenha em 2026
Elizabeth Contreras* retira o carvão da cozinha improvisada sobre blocos de cimento no pátio de sua casa, em um município da periferia a sudoeste de Havana. Na grelha, pedaços de frango irão alimentar três famílias do bairro. "Muita gente vem cozinhando assim há dias, pois a panela elétrica só pode ser usada sem corrente, e temos pouco gás", conta a aposentada de 68 anos à BBC News Mundo. "Os vizinhos se ajudam uns aos outros nesta incerteza", destaca.
Escassez atinge níveis críticos
Cuba sofre uma crise de falta de combustível e energia elétrica que se agravou desde meados de 2024, mas em 2026 a escassez se aproxima de um abismo imprevisível. "Vamos viver tempos difíceis", declarou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, em discurso público no dia 5 de fevereiro, ao anunciar um plano extraordinário de economia de energia.
Após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro, o governo dos Estados Unidos publicou medidas destinadas a dificultar o acesso da ilha ao combustível. Em meio a essa crise, uma refinaria de petróleo em Havana pegou fogo recentemente, com a causa ainda sendo investigada.
Ajuda humanitária internacional
Na quinta-feira, 12 de fevereiro, Cuba recebeu dois navios carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares enviados pelo governo mexicano como ajuda humanitária. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do México, os navios partiram do porto de Veracruz em 8 de fevereiro, poucos dias depois da ameaça do presidente norte-americano Donald Trump de impor tarifas de importação aos países que enviarem petróleo para Cuba.
Mais 1.500 toneladas de alimentos serão enviadas em carregamentos futuros, segundo a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum. O governo brasileiro também avalia enviar carregamentos de ajuda humanitária a Cuba, incluindo remédios e alimentos, embora ainda não haja definição sobre volume, data ou forma de entrega.
Comparação com o "Período Especial"
A situação atual traz recordações do "Período Especial" dos anos 1990, quando Cuba dependia majoritariamente da União Soviética. Após a queda da URSS, os cubanos sofreram uma grave crise com racionamento extremo. Contreras recorda que, "de forma parecida com três décadas atrás, sofremos cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, em mais de uma ocasião".
Para muitos, incluindo Contreras, a ilha nunca superou completamente aquele período. "Mas, agora, me parece mais grave", opina. O professor de estudos cubano-americanos Michael Bustamante, da Universidade de Miami, explica que, embora o colapso atual seja percentualmente menor que nos anos 1990, "para muitos parece ser pior porque se parte de uma situação que, por si só, já é delicada".
Adaptação e desigualdade
Em meio à crise, os cubanos demonstram criatividade e costume. Uma usuária do TikTok, @darlinmedina93, explicou em vídeos como cozinhar com lenha ou lavar roupa nos rios. Jennifer Pedraza*, trabalhadora e estudante de 34 anos, reúne "lâmpadas, ventiladores e luminárias recarregáveis, além de carregadores portáteis".
Contudo, Bustamante observa desigualdades crescentes: "Depois do surgimento de lojas privadas, bem sortidas, quem tiver dinheiro pode conseguir coisas". Aqueles sem recursos enfrentam salários médios de 6.830 pesos cubanos (cerca de R$ 73), enquanto uma garrafa de óleo custa R$ 13 e uma caixa com 30 ovos, R$ 31.
Efeitos na vida cotidiana
Pedraza expressa preocupação com seu filho de nove anos: "Na escola, quase nunca há eletricidade. E, quando ele sai, precisa revisar e fazer tarefas no escuro ao chegar em casa, onde também não há energia elétrica". Ela acrescenta: "Ele também não pode ver desenhos animados nem filmes, nem usar muito o telefone quando não há luz ou internet. É complicado para uma criança ficar o tempo todo às escuras".
Imagens recentes mostraram importantes avenidas de Havana vazias, como a Avenida del Malecón, normalmente uma das vias de maior tráfego da capital. Contreras comenta: "Só rezo para não ficar doente, porque fico apavorada em pensar como poderei me mover".
Contexto político e incertezas
O governo de Havana atribui a crise ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde os anos 1960. No seu discurso, Díaz-Canel garantiu que "Cuba está disposta a um diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto", mas "sem pressões".
Bustamante analisa: "A asfixia econômica dos Estados Unidos em relação a Cuba nunca funcionou. Ela empobreceu a população, que é muito mais prejudicada que o governo". Entre a população, há temores sobre o futuro. Contreras relata: "Há quem comente se aqui pode ocorrer o mesmo que na Venezuela, mas ninguém gosta de ouvir falar em balas e bombas".
A sensação de que "algo vai acontecer" é compartilhada entre os cubanos, mas após décadas de impasses políticos entre Washington e Havana, é difícil prever o que será esse "algo".
* Os nomes das pessoas que ofereceram seus testemunhos foram alterados para protegê-las.



