Acordo Mercosul-UE é assinado: professor analisa geopolítica da semana
Acordo Mercosul-UE assinado e análise geopolítica

O cenário geopolítico internacional viveu uma semana de movimentos decisivos, com eventos que vão desde a consolidação de um grande bloco comercial até gestos simbólicos e ameaças que desafiam a ordem global. O professor Alexandre Uehara, coordenador do curso de relações internacionais da ESPM, analisou esses fatos em entrevista ao programa Hora News na sexta-feira, 16 de janeiro de 2026.

Mercosul e União Europeia fecham histórico acordo comercial

Após mais de duas décadas de negociações, Mercosul e União Europeia finalmente assinaram o acordo que cria um dos maiores blocos econômicos do planeta. A cerimônia ocorreu no Paraguai no sábado, 17 de janeiro. Na véspera, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já haviam se encontrado no Rio de Janeiro para celebrar o marco.

Uehara vê o acordo como um sinal positivo em um mundo marcado por conflitos, um "futuro alvissareiro". No entanto, ele faz um alerta importante: as mudanças não serão imediatas. "Existe um processo de redução de tarifas, beneficiando alguns setores [...] pensado para intensificar o comércio, mas com impactos controlados em ambos os blocos", explicou o especialista. Ele também destacou que a aprovação confortável da população europeia ao tratado seria crucial neste momento.

Venezuela: gesto simbólico e realpolitik

Na quinta-feira, 15 de janeiro, a líder opositora venezuelana María Corina Machado encontrou-se com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em um ato carregado de simbolismo, ela entregou a Trump uma medalha do Prêmio Nobel da Paz.

Para Alexandre Uehara, a ação de Machado segue um roteiro previsível de aproximação com Washington, mas com pouco efeito prático imediato. "Ela está no papel dela [...] tem que fazer essa aproximação. Mas na verdade pouca coisa mudou em relação ao governo da Venezuela", avaliou. O professor ressaltou que Trump não demonstrou preocupação em pressionar por eleições democráticas no país sul-americano, indicando que o gesto foi mais sobre a líder opositora tentar ganhar espaço e força frente à administração americana.

Crise no Atlântico Norte: a disputa pela Groenlândia

As declarações do presidente Trump sobre o interesse em anexar a Groenlândia aos Estados Unidos geraram uma resposta concreta de aliados. Tropas europeias comunicaram o envio de navios para a ilha, movimento que Trump afirmou não o intimidar.

Uehara enxerga a situação com extrema gravidade, transcendendo uma simples disputa territorial. "Os Estados Unidos, ao ameaçar tomar a Groenlândia, colocam não apenas a ilha em xeque, mas a própria existência da Otan", alertou. Ele conectou essa crise a uma fragilização maior dos pilares da ordem internacional, citando que os EUA, "ícone da democracia", estariam perdendo força ao não respeitar leis e acordos estabelecidos.

Irã recua em execuções sob pressão

Em meio a fortes pressões internas e internacionais, o regime dos aiatolás no Irã decidiu cancelar a execução de manifestantes. Segundo a análise de Uehara, a medida é um claro sinal de fragilidade do governo iraniano.

"Essa fragilidade não se dá apenas por questões internas, pela insatisfação popular, mas há uma pressão internacional muito forte também", pontuou o professor. O recuo na pena capital é visto como uma manobra para suavizar a imagem do regime perante seu povo e a comunidade global, em uma tentativa de amenizar as pressões e manter o poder atual.

A semana, portanto, desenhou um tabuleiro geopolítico complexo. De um lado, a promessa de integração comercial entre Mercosul e UE. De outro, tensões que vão do Caribe ao Ártico, passando pelo Golfo Pérsico, demonstrando como a democracia e as instituições multilaterais enfrentam desafios sem precedentes em 2026.