Uma ex-funcionária do gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-DF) revelou que devolvia parte de seu salário a pedido do então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, e a familiares do parlamentar. Documentos bancários e extratos obtidos pela reportagem mostram transferências, saques em espécie e pagamentos de despesas pessoais entre fevereiro de 2023 e março de 2024.
Devolução de salários e repasses
Gardênia Morais foi nomeada em fevereiro de 2023 e permaneceu no gabinete até maio de 2024. Segundo os registros, seu salário líquido variava entre R$ 10 mil e R$ 21 mil. Os valores eram transferidos de uma conta no Banco do Brasil para outra no Itaú, de onde saíam os repasses. Entre os comprovantes estão transferências de R$ 4.600, R$ 5.000, R$ 1.500 e R$ 4.000 para Raphael Azevedo, além de valores enviados à ex-mulher dele e a outra parente.
Pagamentos a familiares
Há também um PIX de R$ 1.000 para Maria Lucia Frias, mãe do deputado, e o pagamento de uma fatura de cartão de crédito de R$ 4.832,32 da esposa de Mario Frias. A reportagem também teve acesso a um saque em espécie de R$ 49.999,99, feito em 27 de março de 2024. Gardênia afirmou que o dinheiro foi entregue, mas não revelou a quem.
Movimentações suspeitas
Os dados mostram ainda que depósitos de R$ 50 mil foram feitos na conta-salário em um dia, transferidos no mesmo dia para outra conta, e sacados em dinheiro vivo no dia seguinte, o que pode ter dificultado o rastreamento dos valores. Gardênia Morais afirmou que devolvia mensalmente parte do salário conforme um acordo com Raphael Azevedo e disse que Mario Frias tinha conhecimento de tudo. Ela declarou que, em média, ficava com R$ 6 mil a R$ 7 mil por mês e que os repasses aumentavam conforme o salário subia.
Empréstimos consignados
A ex-assessora também disse ter contratado cinco empréstimos consignados, somando R$ 174.886, sendo apenas um para uso pessoal. Segundo seu relato, os demais teriam sido feitos a pedido do deputado e do então chefe de gabinete para quitar dívidas de campanha de 2022. A ex-funcionária afirma que os contratos permanecem em aberto e que sua situação financeira se deteriorou após as operações.
Reação dos citados
Questionado pela reportagem, o atual chefe de gabinete, Diego Ramos, disse desconhecer as suspeitas e afirmou que ingressou no gabinete depois do período investigado. Ele declarou ainda acreditar que o deputado também não tinha conhecimento das denúncias. Mario Frias não havia se manifestado até a publicação da reportagem, e Raphael Azevedo também não respondeu aos questionamentos.
A prática de exigir a devolução de parte dos salários de assessores é conhecida como rachadinha. Embora o termo não seja um crime específico na legislação, casos assim costumam ser enquadrados pelo Ministério Público como peculato, quando há desvio de recursos públicos em benefício próprio ou de terceiros.



