A empresa contratada para tapar o chamado 'buraco fake' em Sorocaba (SP), que foi criado para um vídeo do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), também é suspeita de pagar propina em contratos com a prefeitura. A informação consta em um relatório da Polícia Federal (PF) de novembro de 2025, como parte da Operação Copia e Cola, que investiga um suposto esquema de corrupção na cidade.
Como desdobramento dessa operação, a PF cumpriu mandados de busca na residência do prefeito em abril de 2025. Em 6 de novembro do mesmo ano, na segunda fase da operação, Manga foi afastado do cargo. Segundo a investigação, uma contabilidade paralela encontrada no celular de Josivaldo Batista, cunhado de Manga, registrava entradas de dinheiro com a palavra 'ETENG'. Os valores variam de R$ 50 mil a R$ 375 mil, totalizando R$ 553,8 mil.
Para a polícia, o termo se refere à Eteng Engenharia e Serviços Ltda., empresa que possui contratos com o município. A Eteng Engenharia também foi a empresa que, em 9 de abril, tapou um buraco na Rua Diadema, no Jardim Leocádia. A suspeita é que o buraco tenha sido aberto de propósito apenas para que o prefeito gravasse um vídeo para suas redes sociais. Segundo um dossiê de servidores do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), a operação custou ao menos R$ 19,7 mil aos cofres públicos, envolvendo 15 funcionários e sete veículos.
Vídeo viral e contratos milionários
No vídeo, que viralizou com mais de 6,5 milhões de visualizações, Manga aparece em um cenário de obra, com funcionários e máquinas do Saae, para mostrar uma suposta ação de reparo da prefeitura, reforçando sua imagem de 'prefeito tiktoker'. A PF destaca que, entre 2018 e 2025, a Eteng fechou contratos que superam R$ 70 milhões com a prefeitura. 'Portanto, diante dos elementos apurados, verificam-se fortíssimos indícios de [...] pagamento de vantagens indevidas (propina) por parte de representantes da empresa Eteng', conclui o relatório.
Procuradas, a Prefeitura de Sorocaba e o Saae afirmaram que a Eteng presta serviços à cidade desde 2018, dentro das normas legais. Sobre o buraco, a prefeitura inicialmente disse que a vala foi aberta para uma manutenção real na rede de esgoto. A empresa Eteng não se manifestou.
Denúncias no Ministério Público
O g1 teve acesso ao documento feito por um grupo de servidores da autarquia. Nele, é detalhado o uso de 15 funcionários e sete veículos na suposta farsa. Toda a documentação foi encaminhada ao Ministério Público para embasar as investigações sobre o caso. Duas denúncias já foram protocoladas ao órgão sobre o tema. Além dos funcionários do Saae de Sorocaba, moradores do local onde o buraco foi aberto também relatam problemas relacionados à situação. Eles, inclusive, citam que a equipe esperou no local até o vídeo ser gravado pelo prefeito.
Contradições nos documentos
O dossiê dos servidores do Saae aponta várias contradições para provar a farsa, como:
- Fotos idênticas: um relatório que deveria mostrar o 'antes' e o 'depois' do reparo usa a mesma foto para as duas situações;
- Local errado: as fotos do relatório foram tiradas a cerca de 70 metros de onde o buraco para o vídeo foi aberto;
- 'Não é vazamento do Saae': um dos documentos de serviço traz a anotação de que o problema não era de responsabilidade da autarquia;
- Poço de vistoria intacto: o vídeo mostra que a tampa de um poço de vistoria, que precisaria ser aberto para o suposto reparo, sequer foi movimentada.
A mobilização de servidores e equipes para realizar o reparo também chamou a atenção. Ao menos dez servidores foram deslocados para a ocorrência. 'Não havia absolutamente nada. Foi feito para justificar essa demanda. Se verificar no GPS das equipes, vai ver que nunca estiveram todas as equipes na mesma ocorrência em tão pouco tempo', afirmou um servidor, que não será identificado na reportagem.
O g1 também teve acesso a uma foto da rua feita momentos antes do início dos trabalhos, que não mostra qualquer afundamento, vazamento de água ou esgoto na via. Pelo material, é possível identificar três situações que contradizem a abertura de procedimentos pelo Saae: afundamento, esgoto e vazamento de água não são visíveis.
Posicionamento da prefeitura e do Saae
No dia 23 de abril, quando o g1 divulgou o caso, a prefeitura afirmou que a vala foi aberta para obra de manutenção em uma rede de esgoto e que tudo seguiu ordens de fluxo interno de controle. A nota na íntegra diz: 'A vala foi aberta por equipe do Saae/Sorocaba, para obra de manutenção em rede de esgoto. Houve troca de abraçadeira danificada e os trabalhos foram concluídos no mesmo dia, seguido da recomposição do pavimento da via, conforme protocolos operacionais. A intervenção ocorreu a partir de solicitação de serviço devidamente registrada pela autarquia. Todas essas ordens seguem fluxo interno de controle, garantindo rastreabilidade das demandas e das intervenções realizadas.'
A autarquia e a prefeitura não comentaram sobre as denúncias feitas pelos funcionários. No entanto, horas após a publicação da reportagem, o Saae enviou um novo posicionamento ao g1 alegando que o registro de atendimento do serviço executado pela autarquia em questão, referente à vala aberta para obra de manutenção no cruzamento entre as ruas Diadema e Paranapanema, no Jardim Leocádia, seria de outra intervenção. O Saae também enviou um print do suposto registro correto.



