Desistência de Ratinho Jr. enterra terceira via e indica que disputa seguirá polarizada
A decisão do governador do Paraná, Ratinho Junior, de abandonar a corrida presidencial abalou profundamente as pretensões de uma candidatura de centro competitiva, indicando que a disputa eleitoral, mais uma vez, continuará restrita ao embate entre petistas e bolsonaristas. A desistência ocorreu após meses de articulações e transformou o sonho de uma alternativa política em frustração.
Fatores que levaram à renúncia
Com fama de bom gestor e aprovação de cerca de 80% dos paranaenses, Ratinho Junior mudou de planos por uma combinação de fatores políticos e pessoais. Entre eles, destacam-se o receio de que o escândalo do Banco Master atingisse sua pretensão presidencial e as complexas disputas políticas no Paraná.
O caso Master envolve negociações de delação premiada que tratam da compra de parte do resort Tayayá, que pertencia a uma empresa do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. Embora o nome de Ratinho Junior não apareça diretamente na transação, seu pai, o apresentador Ratinho, foi sócio investidor em outra unidade do complexo turístico.
Outro elemento que pesou na decisão foi a parceria comercial do apresentador Ratinho com o Credcesta, um cartão de crédito consignado que se popularizou através de uma parceria envolvendo Augusto Lima, antigo sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, e o ministro Rui Costa.
Consequências políticas imediatas
A desistência do governador paranaense representa uma tremenda reviravolta no cenário político. Antes de Flávio Bolsonaro ser anunciado como candidato a presidente, havia negociações para formar uma chapa com Ratinho Junior no Planalto e Michelle Bolsonaro como vice. Posteriormente, estudou-se uma alternativa com Flávio na cabeça e Ratinho Junior como vice-presidente, mas nenhuma das propostas prosperou.
No campo estadual, surgiu um complicador adicional: o PL de Flávio Bolsonaro filiou o senador Sergio Moro para concorrer ao governo do Paraná. Com o ex-juiz aparecendo como favorito nas pesquisas, Ratinho Junior optou por priorizar a disputa local, enterrando assim a principal aposta de uma opção de centro nacional.
Espaço para terceira via existe, mas falta liderança
Analistas políticos concordam que, apesar da desistência de Ratinho Junior, há espaço considerável para uma candidatura de terceira via. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, aponta que 26% dos eleitores não votaram em Lula nem em Bolsonaro na campanha passada, ou votaram e se arrependeram.
Outros 27% escolheram o petista mas não se identificam como de esquerda, enquanto 18% optaram pelo capitão sem se reconhecerem como de direita. Em tese, esses grupos somados representam 71% do eleitorado que poderia ser conquistado por qualquer candidato.
O marqueteiro João Santana, responsável por campanhas vitoriosas de Lula e Dilma Rousseff, concorda que há uma "avenida enorme" para uma candidatura de centro. No entanto, ele alerta que o interessado no posto deveria priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias.
Desafios para os partidos de centro
O problema fundamental é que os representantes do centro político nem sequer se posicionam de forma efetiva sobre questões relevantes. No Congresso Nacional, quase todo tema polêmico se torna refém da polarização, como a "taxa das blusinhas", a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS.
O eleitorado até agora não sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O histórico MDB permanece dividido em alas e preocupado com querelas paroquiais, enquanto o PSDB perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado.
Cenário eleitoral atual
De acordo com os mais renomados institutos de pesquisa, a eleição será decidida por cerca de 15 milhões de eleitores considerados independentes. A maior parte da população já estaria comprometida com os favoritos na disputa.
Nas simulações de primeiro turno com Lula e Flávio Bolsonaro, nenhum dos outros concorrentes supera os 5% de intenções de voto. Ratinho Junior aparecia com 3,4% antes de sua desistência, enquanto os outros presidenciáveis do PSD, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, marcavam 3,7% e 1,2%, respectivamente.
Estratégias dos principais candidatos
No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação de fato com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno. No entanto, há apreensão com a possibilidade de que os escândalos de corrupção sob investigação pavimentem o caminho para uma terceira via "antissistema".
Flávio Bolsonaro, pela primeira vez numericamente à frente de Lula na simulação de segundo turno, trabalhou desde o início para que o centro e a direita não apresentassem concorrentes na sucessão presidencial. Contrariando a tradição familiar de verborragia, tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal.
Contexto histórico da polarização
Nas últimas duas eleições presidenciais, a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro impediu a consolidação de uma candidatura alternativa competitiva. Em 2018, Ciro Gomes superou a marca de dois dígitos no primeiro turno, mas ficou na terceira colocação com 12,47% dos votos.
Em 2022, o desempenho da pretensa terceira via foi ainda pior. Simone Tebet, concorrendo pelo MDB, acabou em terceiro lugar com apenas 4,16%, enquanto Ciro Gomes registrou meros 3,04%.
O caminho do centro, como ocorreu nas últimas campanhas, continua bastante acidentado e sem uma liderança clara que consiga unificar as diferentes correntes políticas e conquistar o eleitorado que busca uma alternativa à polarização estabelecida.



