Cristovam Buarque critica a esquerda neoliberal por priorizar direitos individuais em vez de transformações sociais
Cristovam Buarque critica esquerda neoliberal por foco em direitos individuais

Cristovam Buarque analisa a esquerda neoliberal e sua falta de foco na erradicação da pobreza

Em um artigo crítico publicado na Revista VEJA, o político e educador Cristovam Buarque discute o surgimento e as características da chamada esquerda neoliberal. Segundo ele, essa vertente política tem priorizado direitos individuais para poucos e lutas sindicais imediatas, em vez de buscar transformações estruturais que beneficiem toda a sociedade, como a universalização de direitos sociais e a erradicação da pobreza.

As contradições da esquerda neoliberal no cenário brasileiro

Buarque argumenta que, no Brasil, a esquerda neoliberal tem se concentrado em aumentar a renda e o consumo dos trabalhadores, mas sem um compromisso real com a abolição da apartação social ou com a garantia de serviços sociais básicos de qualidade para todos. Ele compara essa postura a uma esquerda sul-africana que defendesse os interesses dos trabalhadores brancos sem lutar pelo fim do apartheid, destacando uma falta de visão transformadora.

Entre os exemplos citados, estão:

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  • A defesa de direitos adquiridos por categorias profissionais, como trabalhadores de empresas de saneamento, em detrimento dos moradores que não têm acesso a água e esgoto.
  • O apoio a transferências de renda mínima, como o Bolsa Família – inspirado em ideias neoliberais da Universidade de Chicago –, em vez de incentivos sociais transformadores, como o Bolsa-Escola, focado na educação.
  • A redução da jornada de trabalho para adultos com empregos formais, sem uma luta equivalente por trabalhadores informais, como taxistas, motoristas de aplicativo e entregadores.

Educação e meio ambiente: áreas negligenciadas

O artigo também critica a abordagem da esquerda neoliberal em relação à educação. Buarque aponta que ela reivindica universidade para os 50% que terminam o ensino médio, mas não se compromete com a erradicação do analfabetismo, que afeta cerca de 10 milhões de adultos no país. Além disso, ele destaca que essa vertente administra a rede escolar conforme os interesses dos trabalhadores do setor, e não das crianças de todas as classes sociais.

No campo ambiental, Buarque observa uma contradição: a esquerda neoliberal apoia lutas pela preservação ambiental, mas aprova a exploração de petróleo na foz do Amazonas e não critica modelos de crescimento econômico baseados no consumo depredador. Isso revela, segundo ele, uma falta de ousadia para enfrentar questões estruturais de sustentabilidade.

A necessidade de uma esquerda moderna e inclusiva

Em vez de atuar com força transformadora por meio de partidos com propostas para um futuro eficiente, justo e sustentável, a esquerda neoliberal se concentra em lutas sindicais associadas a categorias profissionais, defendendo vantagens individuais imediatas, mesmo que isso empobreça o setor público e desvie recursos de áreas prioritárias.

Buarque conclui que, embora ainda haja uma esquerda neoliberal para enfrentar a direita neoliberal, é urgente uma esquerda moderna que, sem eleitoralismo imediatista ou ideologias nostálgicas, lute por transformações estruturais. Essa nova esquerda deve buscar retirar o país da armadilha da renda mínima, da ineficiência e da corrupção, liderando a busca por um progresso inclusivo, democrático e justo, sem pobreza.

O artigo foi publicado na edição nº 2988 da Revista VEJA, em 27 de março de 2026, e serve como um chamado para uma reflexão profunda sobre os rumos da política brasileira e a necessidade de priorizar mudanças que beneficiem a todos, e não apenas a poucos.

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