Avatar de IA ‘Dona Maria’ viraliza com críticas a Lula e STF e acende alerta para eleições
Avatar de IA ‘Dona Maria’ viraliza com críticas a Lula

Um avatar de inteligência artificial chamado Dona Maria já acumula milhões de interações nas redes sociais ao fazer críticas contundentes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A personagem, que representa uma mulher negra e idosa que fala palavrões, tornou-se um fenômeno digital e acendeu um alerta entre especialistas sobre os riscos do uso de IA no debate político, especialmente às vésperas das eleições de 2026.

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor tarifas sobre exportações brasileiras, a popularidade de Lula subiu nas pesquisas. Ele se posicionou como crítico da medida, e meses depois o Brasil conseguiu suspender boa parte das tarifas, com elogios de Trump. No entanto, o episódio polarizou as bases de eleitores de Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro. De um lado, atribuía-se o tarifaço às articulações de Eduardo Bolsonaro nos EUA para sancionar ministros do STF. De outro, críticos de Lula, especialmente da ala bolsonarista, acusavam o presidente de fazer política partidária em vez de negociar.

Foi nesse contexto que Dona Maria ganhou destaque. Em um vídeo publicado em 10 de julho de 2025, que atingiu 8,8 milhões de visualizações e mais de 23 mil comentários, ela desabafa: “Eu já estou revoltada com essa p*, Brasil. E o molusco (referência a Lula) está calado. Agora que o povo está levando no r* com taxa gringa, ele está calado igual siri na lata. Cadê o povo na rua? Cadê panela batendo, cadê o grito, cadê a revolta? Ou todo mundo virou planta?”

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O criador do perfil, Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, morador de Magé (RJ), trabalha como motorista de aplicativo e afirma que a página é uma forma de complementar a renda e expressar opiniões sem mostrar o rosto. Ele diz que se inspirou na avó para criar a personagem, mas que a agressividade na linguagem é uma estratégia para engajar nas redes: “Assuntos que geram revolta social, o algoritmo entrega. Crítica a internet entrega. Se fizer vídeo falando muito a verdade, mas sem aquele toque apimentado, não entrega.”

Uma análise da BBC News Brasil, com dados da startup Zeeng, comparou o engajamento de Dona Maria com o de políticos tradicionais. A média de interações por publicação no Instagram da personagem foi semelhante à da senadora Damares Alves (Republicanos) e do deputado Lindbergh Farias (PT), e superou a do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD). Embora o perfil não apoie explicitamente nenhum candidato, as críticas são direcionadas majoritariamente a Lula, ao governo e ao STF. Santos afirma não ter candidato, mas diz que, se pudesse, faria campanha gratuita para Flávio Bolsonaro (PL).

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que conteúdos como esse podem mobilizar eleitores, abastecer candidatos com menos recursos e violar regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O cientista político Hilton Fernandes, da Fespsp, destaca que a qualidade dos vídeos de IA gera desconfiança sobre possíveis financiamentos políticos, mas a reportagem não encontrou evidências disso. Ele alerta que o formato raivoso cria um clima desconfortável e pode radicalizar opiniões.

Yasmin Curzi, professora da FGV Direito Rio, explica que perfis como o de Dona Maria operam em uma “zona cinzenta”. As críticas ao governo não fogem da liberdade de expressão, mas a falta de rotulagem como conteúdo de IA pode ser irregular. O TSE exige que conteúdos gerados por inteligência artificial sejam identificados, e candidatos que compartilharem esse material podem ser responsabilizados.

João Victor Archegas, do ITS Rio, avalia que o TSE não tem capacidade para enfrentar a avalanche de conteúdo de IA. Ele lembra que, nas eleições municipais de 2024, o temido tsunami de desinformação não se concretizou, mas em 2026 a tecnologia está mais barata e acessível. O pesquisador teme que avatares como Dona Maria criem vínculos afetivos com o público, abrindo caminho para a disseminação de informações falsas.

Archegas também destaca a proibição do uso de IA na propaganda eleitoral nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas seguintes, medida aprovada pelo TSE para evitar manipulação de última hora. Para ele, a solução prática passa pelas plataformas de redes sociais, que devem monitorar e conter conteúdos irregulares.

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Procurado, o TSE informou que não se manifesta sobre temas que possam ser objeto de análise na Justiça Eleitoral.