Após a experiência com Gustavo Petro, os eleitores colombianos estariam vacinados contra a esquerda? A resposta parece ser não. A ascensão de um candidato outsider, Abelardo de la Espriella, um advogado com características folclóricas que evocam comparações com Jair Bolsonaro, Javier Milei e José Antonio Kast, está bagunçando o cenário para a eleição presidencial de 31 de maio e pode levar a direita a uma derrota.
Cenário de imprevisibilidade
O que parecia uma eleição resolvida, com a senadora Paloma Valencia, candidata do Centro Democrático (direita) e apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, vencendo no segundo turno, agora se tornou altamente imprevisível. Na mais recente pesquisa, De la Espriella ultrapassou a senadora e se tornou o favorito para ir ao segundo turno contra Iván Cepeda, um clássico candidato de esquerda, sem o destempero de Petro. Cepeda lidera o primeiro turno com 37,2% das intenções de voto. De la Espriella tem 20,4%, enquanto Paloma Valencia caiu para 15,6%.
A senadora, conhecida por seu estilo agressivo, está adotando um discurso mais moderado para se diferenciar do azarão da direita. Chegou a elogiar a política de distribuição de terras de Gustavo Petro, algo impensável até as recentes reviravoltas nas pesquisas. Hoje, deve participar de um debate muito aguardado com Cepeda.
Tradição partidária colombiana
A Colômbia tem uma tradição de partidos bem definidos, tanto de direita quanto de esquerda. Iván Cepeda, por exemplo, tem uma carreira independente de Gustavo Petro. Exilado quando criança, seu pai, um conhecido comunista, foi assassinado por paramilitares de extrema-direita ao retornar à Colômbia. Cepeda, formado em filosofia na Bulgária, abandonou a linha stalinista e adotou um esquerdismo mais próximo ao do PT brasileiro.
Direita autofágica
De la Espriella apela ao discurso antissistema, usando sua imagem de advogado bem-sucedido e milionário. "Não devo nada a ninguém e por isso posso enfrentar o poder sem me ajoelhar", costuma dizer. Em um país onde o narcotráfico e grupos armados ainda infernizam a população, ele defende linha dura na segurança, comparando-se a Nayib Bukele. Uma de suas frases bombásticas: "Sou capaz de bombardear, fumigar e atuar com mão de ferro contra criminosos e corruptos".
No segundo turno, pesquisas indicam empate técnico: 40,6% para De la Espriella contra 40,4% para Cepeda. Paloma Valencia teria vantagem maior, com 44,6%. Outras pesquisas mostram números invertidos, indicando que a situação ainda é fluida. O fato é que a direita dividida está beneficiando a esquerda e amenizando a rejeição a Gustavo Petro.
Nem o destino dos oitenta hipopótamos descendentes dos animais de Pablo Escobar provoca tantas discussões quanto a direita autofágica, que pode perder uma eleição que parecia garantida.



