Nova biografia de Rasputin revela como 'monge louco' acelerou queda dos Romanov
Biografia revela como Rasputin acelerou queda dos Romanov

O 'Monge Louco' e o Destino dos Romanov: Revelações de uma Nova Biografia

A figura enigmática de Grigori Rasputin, o camponês siberiano que se tornou peça central na corte dos Romanov, continua a fascinar historiadores e leitores. Uma nova biografia do renomado escritor britânico Antony Beevor lança luz sobre como este místico semianalfabeto exerceu influência decisiva na queda da família imperial russa no início do século XX.

A Ascensão Improvável de um Peregrino

Nascido em 1869, Rasputin era um simples strannik – peregrino errante na Rússia da virada do século – que conquistou acesso privilegiado aos círculos mais fechados do poder. Sua reputação como homem místico e sua capacidade incomum de comunicação, especialmente com mulheres, abriram as portas da alta nobreza russa. Num ambiente cortesão extremamente rígido, sua presença pitoresca cativou moças da elite, incluindo a própria czarina Alexandra.

O czar Nicolau II, frequentemente descrito como monarca politicamente inábil, e sua esposa Alexandra, que desprezava a corte de São Petersburgo por considerá-la imoral, viram em Rasputin sua ligação direta com Deus e com o povo russo. Isolada e com religiosidade mórbida, a czarina desenvolveu dependência espiritual que se revelaria catastrófica para a dinastia.

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O Milagre que Cimentou o Poder

O ponto de virada na relação entre Rasputin e a família imperial ocorreu através do czarevich Alexei, herdeiro do trono portador de hemofilia. O místico demonstrava habilidade inexplicável – talvez pelo efeito calmante de sua voz – de aliviar o sofrimento do garoto durante graves crises de sangramento.

Em episódio quase fatal na floresta de Spala, na Polônia, quando Alexandra pediu socorro desesperada, Rasputin enviou telegrama afirmando que a criança sobreviveria. Como por milagre, Alexei se recuperou, consolidando a imagem do monge como santo milagreiro e ampliando exponencialmente sua influência sobre a czarina.

Interferência Política e Escândalos Públicos

Com o tempo, Rasputin utilizou seu domínio sobre Alexandra para interferir diretamente no governo russo. Ele opinava sobre nomeações ministeriais, estratégias militares e, sob sua influência, a czarina demitia governadores regionais e ministros que não lhe eram simpáticos. Esta rotatividade caótica de altos funcionários ficou conhecida como "salto de ministros" e contribuiu para a desestabilização do regime.

Enquanto isso, a vida dupla de Rasputin escandalizava a sociedade. Seus excessos alcoólicos e abusos sexuais contra mulheres vulneráveis que o procuravam em busca de favores mancharam ainda mais sua reputação. Porém, o que mais prejudicou a monarquia foram os rumores que se espalharam pelo país: especulava-se que mantinha relações sexuais com a czarina e suas filhas, e que a corrupção por ele patrocinada sugava as entranhas do império.

A Destruição da Credibilidade Imperial

Numa sociedade profundamente machista e patriarcal, a imagem de um czar que permitia ser controlado por um camponês destruiu completamente a credibilidade de Nicolau II. Cartas vazadas em que Alexandra declarava devoção ardente a Rasputin – incluindo a frase "quero adormecer para sempre em seu ombro" – convenceram o público da natureza íntima da relação, embora evidências históricas sugiram que não houve relações físicas entre eles.

O escândalo e a histeria coletiva afastaram monarquistas e desmoralizaram o Exército a ponto de, quando a revolução irrompeu nas ruas no inverno de 1917, praticamente nenhum oficial se dispor a levantar uma espada em defesa dos Romanov. Esta falta de apoio militar facilitou dramaticamente o colapso do império russo diante das forças revolucionárias.

Morte e Legado Trágico

A morte de Rasputin em dezembro de 1916, orquestrada por monarquistas que incluíam o príncipe Felix Yusupov, visava afastá-lo dos Romanov e salvar o império. Envenenado e atingido por um tiro no coração, seu assassinato não alcançou o objetivo desejado.

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Pouco mais de um ano depois, após abdicar do trono no início de 1917, o czar, a czarina e seus cinco filhos tiveram destino semelhante ao de seu guia espiritual: foram mantidos prisioneiros até serem executados com fuzis e baionetas por um esquadrão bolchevique na noite de 16 para 17 de julho de 1918, selando definitivamente o fim da dinastia Romanov.

A biografia Rasputin: The Downfall of the Romanovs, que chegará ao Brasil em novembro pelo selo Crítica da editora Planeta, oferece análise detalhada de como um camponês semianalfabeto se tornou ator político relevante no colapso do maior regime autocrático do mundo à época. A obra ilumina as complexas dinâmicas que transformaram um peregrino errante em peça-chave da tragédia imperial russa.