Vídeo viral sobre Tarcísio e governadores pedindo intervenção no STF é totalmente falso e gerado por IA
Um vídeo que circula amplamente nas redes sociais, alegando que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e outros 12 "governadores bolsonaristas" assinaram uma carta pedindo intervenção federal no Supremo Tribunal Federal (STF), foi completamente desmentido. O material é fabricado com inteligência artificial e não possui qualquer veracidade, conforme verificação realizada pelo Fato ou Fake.
Como o conteúdo falso se espalhou
O vídeo original foi publicado no YouTube no dia 4 de fevereiro e rapidamente ultrapassou 225 mil visualizações, sendo replicado em diversos outros canais da plataforma. O título enganoso afirmava: "Tarcísio reúne 12 governadores bolsonaristas e assina carta pedindo intervenção federal no STF".
No conteúdo, aparece a imagem de um homem criada artificialmente, acompanhada de um áudio sintético que declara: "Tarcísio junta 12 governadores bolsonaristas, e [eles] assinam carta pedindo intervenção federal no STF. É isso mesmo que você ouviu. Um movimento coordenado, articulado e histórico. Governadores de peso decidiram reagir contra abusos do Supremo. A carta já foi protocolada no Senado Federal. O alvo principal é Alexandre de Moraes".
Embora o canal que publicou o vídeo tenha descrito, em letras miúdas, que "o conteúdo não afirma como fatos comprovados as cartas, documentos, pedidos e movimentações discutidas" e que se trata de "especulação para fins de análise e entretenimento político", muitos usuários nas seções de comentários demonstraram acreditar na veracidade da informação.
Checagem revela uso de inteligência artificial
O Fato ou Fake submeteu o material a detectores especializados que confirmaram o uso de IA na produção. A ferramenta SynthID Detector, do Google, identificou que o vídeo foi feito com a tecnologia de IA da própria empresa, enquanto a plataforma Hiya apontou 99% de probabilidade de o áudio ser falso.
Consultadas sobre o caso, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo respondeu que "trata-se claramente de informação falsa, totalmente improcedente". Já a assessoria do Senado Federal afirmou categoricamente que "não foi protocolado qualquer documento com o teor descrito no link enviado".
Especialista explica impossibilidade jurídica
O advogado constitucionalista Felipe Penteado Balera, doutor em direito constitucional pela PUC-SP, foi enfático ao explicar a completa impossibilidade jurídica da narrativa apresentada no vídeo.
"Isso é juridicamente impossível. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece, no art. 2º, o princípio da separação dos Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes e harmônicos entre si. O Supremo Tribunal Federal integra o Poder Judiciário da União e não está sujeito a qualquer forma de 'intervenção' por governadores", afirmou Balera.
O especialista detalhou ainda que a intervenção federal, prevista nos arts. 34 e 36 da Constituição, é um instituto completamente diferente: trata-se de medida excepcional pela qual a União restringe temporariamente a autonomia de um Estado-membro.
"Ou seja, quem pode sofrer intervenção são os próprios estados — e, consequentemente, seus governadores — e não o STF", explicou Balera, lembrando exemplos concretos como as intervenções federais no Rio de Janeiro e em Roraima em 2018, decretadas pelo então presidente Michel Temer.
O constitucionalista foi categórico ao afirmar que "nunca houve, nem há previsão constitucional, de 'intervenção no STF'" e que qualquer cogitação nesse sentido representaria "gravíssima afronta ao princípio da separação dos poderes", que constitui cláusula pétrea da Constituição, insuscetível de supressão sequer por emenda constitucional.
Contexto político e desinformação
O vídeo surge em um contexto político marcado pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pela Primeira Turma do STF em setembro de 2025, que resultou em pena de 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes. O ministro Alexandre de Moraes foi o relator da ação.
Esta não é a primeira vez que conteúdos gerados por IA circulam como se fossem reais. Recentemente, outro vídeo falso mostrando uma capivara pegando "carona" em cima de um tatu também foi desmentido pelo Fato ou Fake, demonstrando o crescente desafio do combate à desinformação em meio ao avanço das tecnologias de síntese de mídia.
Para verificar informações suspeitas, os leitores podem enviar conteúdos ao WhatsApp do Fato ou Fake: +55 (21) 97305-9827. Após adicionar o número, é necessário enviar uma saudação para ser inscrito no serviço de checagem.



